
A natureza dos sonhos
“De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos” (Fernando Pessoa).
Desde que se tem registro da história da humanidade os sonhos têm exercido um fascínio irresistível sobre o ser humano. Os sonhos e suas interpretações têm presença garantida no imaginário popular de todas as culturas e são incontáveis os religiosos, poetas, filósofos e escritores que abordaram o tema. No entanto, foi somente após a publicação de uma das obras clássicas de Sigmund Freud, Traumdeutung (Interpretação dos Sonhos) que a investigação dos sonhos passou a ter um enfoque científico. Freud sugeria que cada sonho tem um significado e traz uma mensagem manifestada por um processo inconsciente. O conteúdo dos sonhos seria “o resultado dos desejos inconscientes, principalmente de sentido sexual, reprimidos no estado de vigília”. Portanto, seu estudo poderia ser utilizado na psicanálise e no tratamento de neuroses. Não obstante sua contribuição para a análise científica do tema, a descrição freudiana do sonho é duramente criticada por sua carência de respaldo na neurofisiologia. Já se sabe que os sonhos não têm origem em fatores psicológicos como desejos reprimidos, mas em processos biológicos. A natureza excêntrica dos sonhos está recém começando a fazer algum sentido para os cientistas que estudam os processos cerebrais que ocorrem durante o sono. Em 1977 dois cientistas da Universidade de Harvard, Dr. Allan Hobson e Dr. Robert McCarley propuseram a hipótese da “síntese-ativação”, que postula que os sonhos são processos aleatórios. Durante a fase do sono REM (quando ocorre o processamento da memória), o córtex cerebral é extremamente ativo. Isso faria com que certos neurônios fossem estimulados ao acaso (ativação). Em resposta a estes sinais aleatórios o cérebro buscaria algo que fizesse sentido, uma melhor adaptação, que, por sua vez, geraria os impulsos que experimentamos como “sonhos”. O fato da teoria negar a possibilidade dos sonhos terem algum significado ou estarem relacionados ao ambiente, gerou uma enorme controvérsia e críticas severas por parte de outros estudiosos do assunto. Em conseqüência, uma revisão da hipótese publicada em 1988 pelos mesmos autores já aceita que os sonhos podem não ser um processo tão aleatório como se imaginava e podem ser reflexos de memórias, medos, esperanças e desejos.
Ainda estamos muito longe de desvendar os segredos do sonho e vamos seguir intrigados com sua natureza. As evidências apenas indicam que os sonhos têm tanto determinantes fisiológicos quanto psicológicos. Combinados, estes funcionam de maneira única em cada indivíduo. É uma força fascinante que nos brinda com a possibilidade de experimentar o mundo de uma perspectiva completamente particular. Que nos permite a consciência de nossa individualidade como seres humanos.
“De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos” (Fernando Pessoa).
Desde que se tem registro da história da humanidade os sonhos têm exercido um fascínio irresistível sobre o ser humano. Os sonhos e suas interpretações têm presença garantida no imaginário popular de todas as culturas e são incontáveis os religiosos, poetas, filósofos e escritores que abordaram o tema. No entanto, foi somente após a publicação de uma das obras clássicas de Sigmund Freud, Traumdeutung (Interpretação dos Sonhos) que a investigação dos sonhos passou a ter um enfoque científico. Freud sugeria que cada sonho tem um significado e traz uma mensagem manifestada por um processo inconsciente. O conteúdo dos sonhos seria “o resultado dos desejos inconscientes, principalmente de sentido sexual, reprimidos no estado de vigília”. Portanto, seu estudo poderia ser utilizado na psicanálise e no tratamento de neuroses. Não obstante sua contribuição para a análise científica do tema, a descrição freudiana do sonho é duramente criticada por sua carência de respaldo na neurofisiologia. Já se sabe que os sonhos não têm origem em fatores psicológicos como desejos reprimidos, mas em processos biológicos. A natureza excêntrica dos sonhos está recém começando a fazer algum sentido para os cientistas que estudam os processos cerebrais que ocorrem durante o sono. Em 1977 dois cientistas da Universidade de Harvard, Dr. Allan Hobson e Dr. Robert McCarley propuseram a hipótese da “síntese-ativação”, que postula que os sonhos são processos aleatórios. Durante a fase do sono REM (quando ocorre o processamento da memória), o córtex cerebral é extremamente ativo. Isso faria com que certos neurônios fossem estimulados ao acaso (ativação). Em resposta a estes sinais aleatórios o cérebro buscaria algo que fizesse sentido, uma melhor adaptação, que, por sua vez, geraria os impulsos que experimentamos como “sonhos”. O fato da teoria negar a possibilidade dos sonhos terem algum significado ou estarem relacionados ao ambiente, gerou uma enorme controvérsia e críticas severas por parte de outros estudiosos do assunto. Em conseqüência, uma revisão da hipótese publicada em 1988 pelos mesmos autores já aceita que os sonhos podem não ser um processo tão aleatório como se imaginava e podem ser reflexos de memórias, medos, esperanças e desejos.
Ainda estamos muito longe de desvendar os segredos do sonho e vamos seguir intrigados com sua natureza. As evidências apenas indicam que os sonhos têm tanto determinantes fisiológicos quanto psicológicos. Combinados, estes funcionam de maneira única em cada indivíduo. É uma força fascinante que nos brinda com a possibilidade de experimentar o mundo de uma perspectiva completamente particular. Que nos permite a consciência de nossa individualidade como seres humanos.
By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 22 de Março de 2007

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