09 October, 2007



Razões para Esperança

O centro de esportes da Colorado State University está lotado. Milhares de pessoas de todas as idades conversam animadamente. Ao fundo a orquestra da Universidade executa temas que seriam mais apropriados para uma parada ou desfile. Subitamente a multidão levanta-se e aplaude com entusiasmo. Ao fundo, calmamente entra em cena uma senhora elegante e altiva. Aproxima-se do púlpito e aguarda pacientemente. O Presidente da Universidade brevemente introduz a convidada uma vez que esta dispensa maiores apresentações. Trata-se de Jane Goodal, PhD, DBE. Eu estou familiarizado com o “PhD” mas confesso que fiquei curioso com o significado de “DBE” e decidi investigar. Para uma pessoa a altura de Jane Goodal usar tal credencial, deve ser algo importante. E é! DBE é a abreviação de “Dame of the British Empire”, honraria feminina que correspondente ao “Knight of the British Empire” (cavalheiro do Império Britânico) mais conhecido como “Sir”. A Dr. Goodal certamente não necessita de nenhum título honorífico para turbinar seu currículo, mas com certeza o merece. Quem tiver o privilégio de conhecê-la vai estar diante de uma figura aparentemente frágil, olhos profundos, fala pausada e gestos aristocráticos e mesmo que não a conheça, não levará mais que alguns segundos para perceber que está diante de alguém especial, muito especial ! Nascida em Londres, Jane Goodal desde cedo demonstrou um fascínio especial por todas as formas de vida. Não pertencendo a uma família rica tornou-se secretária, mas sem jamais abandonar seu interesse pela natureza. Ofereceu-se para trabalhar com Louis Leakey, o cientista que estabeleceu que o ser humano evoluiu de um ancestral comum, originário da África. Com seu entusiasmo, Jane convenceu o Dr Leakey a enviá-la para a Africa para estudar os Chipanzés do Lago Tanganica, na Tanzânia. Seu observações a respeito da vida social e familiar dos Chipanzés e principalmente a descoberta de que se utilizam de ferramentas levou muitos cientistas a reavaliarem seus conceitos a respeito do que pode ser considerado “humano”. Até então acreditava-se que os seres humanos eram os únicos a se utlizarem de ferramentas e este fato é o que nos diferenciava de nossos parentes mais próximos. Hoje já se sabe somos ainda mais próximos. Descobriu-se que humanos e Chipanzés tem apenas 1% de diferença em seus genes, que os Chipanzés podem adquirir praticamente todas as doenças humanas e inclusive é possível fazer transfusão interespecífica de sangue.
Apesar de sua paixão pelo estudo dos Chipanzés em seu habitat natural, há muitos anos Jane tomou uma decisão difícil e afastou-se do trabalho de campo. Percebeu que poderia seria mais útil não apenas para os Chipanzés, mas para a natureza e a humanidade tornando-se uma ativista, levando ao mundo a sua experiência e sua mensagem de alerta. Em 1977 fundou o “Instituto Jane Goodal para pesquisa de vida selvagem, educação e conservação” cujo objetivo principal era dar suporte às pesquisas com Chipanzés mas que tornou-se referência mundial por seus programas de conservação de ecossistemas promoção de convivência sustentável e conscientização de jovens. Em decorrência do seu trabalho, em 2002 a Dr Goodal foi designada “Mensageira da Paz” pelo Secretário Geral das Nações Unidas Koffi Annan. A função de tais “Mensageiros” é auxiliar na mobilização das pessoas para tornar este mundo um lugar melhor para se viver e certamente Jane Goodal possui todas as qualificações necessárias. Ela afirma que o que nos faz humanos é nossa linguagem, nossa capacidade de pensamento, de contar histórias do passado e planejar o futuro, de discutir idéias. Portanto, é absolutamente inadmissível que a única espécie animal com este potencial seja justamente a que esta destruindo o planeta. É assustador quando se percebe que atualmente entre 20 a 30 % de todas as espécies animais correm risco de extinção. Jane acredita que a possibilidade de uma mudança para melhor baseia-se em quatro pontos:
a) O cérebro humano que nos permite perceber que existe de fato um problema que esta ameaçando a nossa vida na terra. Somos responsáveis pelo mundo que vamos deixar para nossos descendentes e devemos aprender a ter respeito por todas as coisas vivas;
b) A determinação dos jovens que atualmente estão mais conscientes e preocupados com as questões ambientais e que serão os líderes do futuro;
c) O indomável espírito humano representado por milhares de pessoas que não medem esforços para fazer este planeta um lugar melhor para se viver, que nunca desistem de seus sonhos e que, com seu exemplo, inspiram a outros tantos;
d) A capacidade der recuperação da natureza que mesmo após as maiores agressões impostas pelo ser humano ainda teima em se recuperar. Jane carrega consigo uma folha de uma árvore que resistiu a explosão atômica de Hiroxima como símbolo de esperança.
Ao ser questionada se ela realmente acreditava num futuro melhor afirmou categoricamente “eu viajo 300 dias por ano e já estive em mais de cinquenta países levando minha mensagem. Eu não faria isso se não acreditasse que existe esperança. Está em nossas mãos e só depende de nós. A humanidade pode enfrentar o desafio e tornar este mundo melhor. Nós devemos! Nós iremos! "

By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 3 de Maio de 2007

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