09 October, 2007

Aquarela dedicada a Purezinha 1944


Um país se faz com homens e livros

No idos de 1882 nascia em Taubaté o autor da frase acima. Seu nome; José Bento Monteiro Lobato. Advogado, desenhista, escritor e fundador da primeira editora brasileira. Monteiro Lobato é considerado um dos maiores escritores de literatura infanto-juvenil do mundo. Com mais de 26 livros publicados, no Brasil é mais lembrado pela geração atual pela adaptação de sua obra apresentada no programa “Sítio do pica-pau amarelo” que desde 1952, já teve diversas versões na televisão. Lembro com saudade dos finais de tarde de minha infância quando sentava em frente a TV esperando ansiosamente pelas novas aventuras da Emília, Pedrinho, Narizinho, Visconde de Sabugosa, Rabicó, Dona Benta, Tia Nastásia, Saci, Cuca e outros tantos. Tradição que foi seguida pelos meus irmãos mais novos e que provavelmente acabou com o nascimento da geração video game.
Além do seu brilhante trabalho como escritor, Monteiro Lobato foi um gênio à frente do seu tempo. Tinha uma visão muito clara e considerada avançada para a época, dos problemas e do potencial do Brasil. Já na década de 30 discutia problemas sociais que são importantes até hoje como a questão do desenvolvimento urbano e empobrecimento do campo, burocracia, a questão da mulher, violência, etc... Também era um ferrenho defensor da exploração das riquezas naturais do Brasil. Afirmava por exemplo, que o Brasil possuia petróleo e que o governo devia permitir à iniciatia privada o direito de explorá-lo. Acusa o serviço geológico nacional de ineficiente e a serviço de trustes internacionais que defendiam a política de "não tirar petróleo e não deixar que ninguém o tire". Este fato o colocou em rota de colisão com o governo Getúlio Vargas que por sua vez, terminou por brindá-lo com algumas temporadas na prisão. Ironicamente, a luta de Monteiro Lobato serviu de inspiração para a campanha "O petróleo é nosso" que levou Vargas a criar a Petrobras em 1953.

Monteiro Lobato foi imortalizado por sua obra literária, contudo seu exemplo como brasileiro parece não ter tido o mesmo impacto. Num país que precisa ser feito de homens, vemos o Jeca Tatu na figura do cidadão atual, que resignado, vê o parasitismo político se instalando e nada faz. Fica de cócoras em frente ao seu rancho, pitando seu cigarro de palha e vendo a vida passar. Frente a possibilidade de lutar contra a destruição dos valores éticos e a corrupção institucionalizada coça a barbicha rala e responde: Não paga a pena!

Um país "feito de livros" é uma simples metáfora. Deveria ser óbvio o fato de que, para um país crescer, há que se promover a educação do povo. Contudo, num país que precisa ser feito de livros, o Brasil possui um quarto da população formada de analfabetos funcionais. Mesmo considerando os adultos alfabetizados, apenas um em cada três lê livros não acadêmicos (e sabe-se lá de que qualidade!) Mario Quintana já dizia que "analfabetos são os que sabem ler e não lêem", mas certamente poucos leram a frase. A propósito, para evitar uma surpresa desagradável é melhor nem investigar qual o percentual de brasileiros que já ouviram falar de Mário Quintana.

Lembro de uma oportunidade em que assistia uma palestra proferida por um cientista e escritor famoso. Quando foi permitida à audiência lhe dirigir perguntas, alguém indagou qual era a sua expectativa com relação à seus livros, considerando seu alto custo no país. Este respondeu com muito bom humor: “eu espero que tenham um preço acessível mas que sejam mais caros que papel higiênico!”

Fico imaginando qual seria a visão de Lobato do Brasil, 60 anos após a sua morte. Creio que se repetíssemos as pergunta obteríamos as mesmas respostas dadas a um repórter que o entrevistou quando morava na Argentina:

Repórter - Olhando de longe, seus pontos de vista sobre o futuro do Brasil sofreram qualquer alteração?

Monteiro Lobato — Nenhuma. Perto ou longe o nevoeiro é o mesmo

Repórter – Finalmente, retornando ao Brasil, que pretende fazer ?

Monteiro Lobato — Que pretendo fazer? Rebolar-me dentro da goiaba, contemplar o umbigo e preparar-me num convento para a viagem final. O meu cavalo está cansado, querendo cova — e o cavaleiro tem muita curiosidade em verificar pessoalmente se a morte é vírgula, ponto e vírgula ou ponto final.



By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 31 de Maio de 2007

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