Sobre homens e asasSegundo a mitologia grega, Minos, rei de Creta e filho de Zeus e de Europa era um bom sujeito. Consequentemente, não é muito lembrado. Entretanto seu neto Lycastus teve um filho também chamado Minos. Como este foi um notório mau caráter, reservou seu espaço na história. O Minos mau teve que lutar contra seus irmãos para assumir o trono de Creta. Para demonstrar que era o escolhido pediu ao deus Posseidon que lhe enviasse um touro branco sagrado para ser sacrificado como símbolo de sua subserviência. Posseidon atendeu seu pedido mas Minos não cumpriu sua promessa. Resolveu sacrificar um outro animal ao invéz do magnífico touro. Como um Deus tudo sabe e tudo vê, Posseidon ficou furioso por ter sido enganado e como castigo, fez com que Pasipha, esposa de Minos, se apaixonasse pelo animal. Do romance nasceu um monstro chamado Minotauro, com um corpo de homem e cabeça e cauda de Touro. Como touros da mitologia não precisam ser necessariamente herbívoros, o Minotauro só se alimentava de carne humana e quanto mais crescia mais selvagem se tornava. Para conter a fera, Minos solicitou ao grande arquiteto Dédalo que construísse uma jaula inexpugnável e este construiu um grande labirinto. O Minotauro terminou seus dias pelas mãos do herói Teseu, mas esta é outra história. Conta a lenda que Dédalo e seu filho Ícaro foram presos pelo rei para que não contassem o segredo do labirinto que construíram. Como o rei controlava a terra e o mar, Dédalo concluiu que o único modo de alcançar a liberdade seria pelo ar. Decide então construir um par de asas para si e para seu filho o que foi levado a efeito utilizando penas de pássaros coladas com cera. Antes da partida, Dédalo orienta Ícaro a não voar muito perto do sol uma vez que o calor poderia derreter a cera e desmanchar as asas. Ao que tudo indica, Ícaro pertencia ao modelo clássico de filho, não seguiu os conselhos de seu pai e voou muito alto. Quando se deu conta do erro, a cera havia derretido e ele se encontrava em decida vertiginosa de encontro ao mar, onde morreu. Já nesta época ficava evidente que é aconselhável seguir as instruções do fabricante.
O sonho de Ícaro contudo, não morreu com ele. Alguns milhares de anos depois, precisamente as 4 horas da tarde do dia 23 de Outubro de 1906 no aeroporto de Bagatelle, Paris, um brasileiro chamado Alberto Santos Dumont tornou-se a primeira pessoa a voar numa máquina mais pesada que o ar. Santos Dumont criou o primeiro protótipo mas não é uma unanimidade quando se trata da paternidade do avião. Para muitos (principalmente os americanos) o avião foi criado pelos irmãos Wright que teriam realizarado primeiro vôo em 1903. Fato que supostamente permaneceu anônimo devido a sua intenção de patentear o invento. Já Santos Dumont fez uma demonstração para centenas de pessoas, não quis patentear seu invento e o colocou em domínio público. O fato de Santos Dumont ter ou não a primazia do primeiro vôo tornou-se irrelevante, uma vez que seu papel, no desenvolvimento do que hoje chamamos de avião, foi fundamental e é universalmente reconhecido. Santos Dumont suicidou-se em 1932 e alguns acreditam que a visão de aviões atacando o campo de Marte, em São Paulo, durante a revolução constitucionalista contra o governo Getúlio Vargas possa ter desencadeado seu ato extremo.
Voar sempre serviu de metáfora para liberdade e para a ambição. Contudo, graças a Dumont também passou a ser uma realidade. Falando nisso, fico imaginando qual seria sua reação perante a realidade em que vivemos. Provavelmente ao invéz de se enforcar com a própria gravata Dumont certamente teria muito mais motivos para querer esganar alguns colarinhos brancos que andam por ai colocando vidas humanas em risco com o seu invento.
By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 2 de Agosto de 2007

0 Comments:
Post a Comment
<< Home