09 October, 2007




Os números da irresponsabilidade



Manchete do iníco da semana: “A Polícia Rodoviária Federal (PRF) registrou queda nos números de acidentes, mortos e feridos na Operação de Independência, encerrada no domingo à meia-noite. Foram contabilizados 1.754 acidentes, 1.186 feridos e 101 vítimas fatais...Minas Gerais foi novamente o estado com maior número de mortos, com um total de 22 vítimas fatais. Em seguida vem Santa Catarina e Bahia (12), Rio de Janeiro (08), São Paulo (06) e Espírito Santo e Goiás (05)”. Em qualquer país desenvolvido do mundo dados como este deixariam a opinião pública de cabelos em pé e a definição seria apenas um “massacre”. Eu não considero o Brasil nem por um segundo um país sub-desenvolvido, no entanto, a manchete acima foi publicada e despertou pouca atenção. Para o brasileiro foi apenas mais um feriado e os números representam algo quem já não impressiona. Provavelmente a resposta possa ser comparada a reação dos habitantes de Bagdá diante da explosão de mais um carro bomba. A diferença é que Bagdá vive num estado de sítio, situação de guerra civil, onde ninguém sabe quem é amigo ou inimigo. O Brasil, apesar de ter todas as condições para estar muito melhor, vive um momento de paz e de relativa prosperidade. Ao menos teoricamente é uma democracia e as diferenças normalmente não são resolvidas à bala ou à bomba. O Brasileiro é pacífico por natureza. Pacífico até demais!
Estive fazendo uma análise e me dei conta que conheço muito pouca gente que ainda não perdeu um ente querido num acidente de trânsito. Eu perdi um irmão com 19 anos, e uma boa parte das pessoas que conheço passaram por tragédias semelhantes. Acidentes acontecem e de acordo com o dicionário seriam “acontecimentos casuais, fortuitos, inesperados; ocorrências”. Contudo, pelo que me consta, uma boa parte das tragédias que ocorrem no Brasil não se enquadram na classificação de “acidente”. Um motorista bêbado que atropela pessoas ou colide com outro carro não provocou um “acidente”, uma vez que é uma situação previsível. Carros que se chocam numa rodovia sem as mínimas condições de rolagem e de segurança não se envolvem em um “acidente”, simplesmente participam de um evento que é previsto na estatística pelas leis das probabilidade. Estatística essa que por sinal é muito bem aproveitada por políticos em época de eleição. Típico caso de algo que quando é favorável se aproveita e quando é desfavorável se descarta. No Brasil existem 81 veículos motorizado para cada 1000 pessoas (um carro para cada 12 pessoas) enquanto nos EUA existem 765 veículos motorizados para cada 1000 pessoas (um carro para cada 0.76 pessoa). O Brasil tem uma população de 190 milhões de habitantes enquanto os EUA tem uma população de 301 milhões de habitantes. De acordo com a Associação Brasileira de Medicina do Tráfego - ABRAMET (http://www.abramet.org/home.asp) de 30 a 50 mil pessoas morrem anualmente em acidentes automobilísticos no Brasil. Destes, 44% tem idade entre 20 e 39 anos e 82 % são homens. Nos Estados Unidos, ocorrem anualmente cerca de 6.4 milhões de acidentes automobilísticos, resultando em prejuízos materiais de cerca de 230 bilhões de dólares e ceifando a vida de cerca de 42,636 pessoas. Cerca de 115 pessoas morrem por dia em acidentes de carro nos EUA, uma morte a cada 13 minutos. As estatísticas brasileiras não são precisas, mas de qualquer modo, o Brasil apresenta um número de mortos equivalente a um país que possui uma população 30 % maior e uma proporção de carros por habitante 9 vezes maior. Em outras palavras, as estradas brasileiras matam quase 30 vezes mais que as americanas. Não seriam esses números de uma magnitude suficiente para chamar a atenção indicando que algo está errado no Brasil? Comparações com outros países são ainda mais deprimentes, melhor ficar por aqui mesmo.
Certamente um engenheiro de tráfego ou qualquer outro especialista no assunto deve ter mil explicações para a tragédia brasileira. Contudo na minha experiência como motorista de duas bandeiras posso concluir que:

- A Polícia Rodoviária Federal (PRF) faz um excelente serviço. Certamente desempenha um trabalho muito mais difícil que a polícia de trânsito americana com mais eficiência e menos condições técnicas. Certamente a PRF faz parte da solução, não do problema.

- As condições das estradas brasileiras são extremamente precárias e em muitos casos não alcançam os padrões mínimos de segurança. Os governos federal, estadual e as concessionárias deveriam ser responsabilizados criminalmente pelos acidentes ocasionados por problemas inerentes a sinalização e condições da pista de rolagem.

- O motorista brasileiro é muito habilidoso, mas irresponsável. Deveria existir mais rigor na execução da lei com relação a punição por direção irresponsável e direção sob influência de álcool ou drogas.

Nos EUA ser pego dirigindo sob influência (DUI) é passaporte para a prisão e, independe da influência social ou financeira. Pode haver favorecimento deste ou daquele com muito boas conexões, mas isso certamente é excessão. No Brasil ainda prevalece a história do “você sabe com quem está falando?”. Não raro policiais honestos tem sua autoridade atropelada por alguém “de cima”. Que foi que aconteceu com aquele pagodeiro famoso que estava dirigindo bêbado e atropelou e matou um motociclista? E aquele jogador “animal” que embriagado, se envolveu num acidente e matou 3 pessoas? O conceito de culpa está mais do que bem caracterizado na jurisprudência brasileira; qualquer cidadão só poderá ser considerado culpado após o transitado em julgado. Lamentavelmente alguns cidadãos parecem ser mais culpáveis que outros e neste meio tempo, pessoas morrem por atacado.



By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 13 de Setembro de 2007

0 Comments:

Post a Comment

<< Home