
Quando o melhor amigo ataca
O cão foi provavelmente o primeiro mamífero a ser domesticado pelo ser humano. Há os que sugerem que este relacionamento possa ter começado numa época tão remota como 100 mil anos atrás, mas o que se sabe é que há pelo menos 10 mil anos todos os assentamentos humanos registram presença de cães. Em diferentes regiões do planeta os ancestrais caninos foram selecionados com diferentes propósitos resultando numa variabilidade de formas e tamanhos que é única entre os mamíferos. Existem cães com todo tipo de pelagem e padrão de cor. A altura pode variar de pouco mais de 10 cm (Chihuahua) até mais de um metro (Dinamarquês). O peso pode variar de meio kilo até mais de 130. Apesar do American Kennel Club reconhecer apenas 218 raças, alguns autores descrevem a existência de mais de mil. Com toda essa diversidade morfológica, é razoável esperar uma diversidade proporcional de temperamentos. Por conseguinte, temos raças agitadas e raças mais tranquilas, raças mais agressivas e raças mais pacíficas. Adicione-se a isso as incontáveis misturas raciais e a influência humana e temos todo o tipo possível de temperamento e conseqüentemente de comportamento. Para os que admiram os cães, poucos fatos são tão constrangedores como capas de jornal com as seguintes manchetes: “Cão da raça Pit Bull ataca e mata bebê”, “Idosa de 81 anos é atacada por cinco cães”, etc. Estes acontecimentos entristecem e deprimem não apenas pela tragédia de vidas ceifadas ou corpos mutilados, mas pela evidência inequívoca que estamos falhando com quem nós mesmo definimos como “o melhor amigo do homem”. Lobos e cães selvagens não são animais violentos com seus pares. São animais sociais que se utilizam de uma agressividade calculada apenas para manter seu status na hierarquia. A agressividade pode ser vista mais como um ritual para estabelecer e manter a liderança, uma vez que os comportamentos agressivos raramente resultam em dano físico para indivíduos do grupo. O cão líder (alfa) mantém o controle e a hierarquia da matilha através de sua supremacia física e para isso constantemente envia sinais que reforçam sua dominância. Quando a liderança é desafiada o alfa pode desenvolver um comportamento agressivo que normalmente se extingue assim que o desafiante sinalizar submissão.
O processo de domesticação dos cães pode ter alterado a forma mas não foi capaz de alterar a substância. O instinto canino de viver em família, dentro de uma “hierarquia social de matilha” persiste. Todo cão precisa de liderança e quando este não a encontra, torna-se o líder e administra sua “matilha” do único jeito que sabe e quem não consegue entender as regras termina por pagar o preço. Por exemplo, o que a maior parte das pessoas confunde com um comportamento de “ciúmes” de alguns cães é apenas uma demonstração de dominância. Cães não sentem ciúmes, cães defendem o que consideram sua propriedade, parte de sua matilha ou seu território. Quando um cão rosna para alguém que se aproxima de um membro da família pode estar demonstrando um comportamento de guarda para o qual foi selecionado, mas também pode estar demonstrando um comportamento de dominância. Quem não souber interpretar o aviso pode terminar se ferindo. No Brasil é bastante comum ver moradores de rua sendo fielmente seguidos por cães e não me consta que exista notícia de que algum tenha sido atacado. Qual a razão ? Certamente não é pela alimentação cara e pelos mimos. O cão se sente confortável porque tem um líder, alguém que não questiona, determina e segue em frente, independentemente das adversidades.
Qual a razão para tantos ataques ? O número de ataques está realmente crescendo ou estes estão tendo maior visibilidade ?
Não consegui encontrar estatísticas atualizadas de casos de ataques por cães no Brasil, portanto vou me basear em dados dos EUA e Canadá. Nos EUA existem cerca de 74.8 milhões de cães ( 1 cão para cada 4 pessoas). Estima-se que anualmente 4.7 milhões de pessoas são feridas por cães. Destas, 800 mil sofrem ferimentos que requerem atenção médica e uma média anual de 17 morrem em decorrência destes. Mesmo assim, a probabilidade ser morto em decorrência de um ataque por cães é 58 vezes menor do que a de ser atingido por um raio. Se por um lado o número de mortes não impressiona, o número de ataques preocupa por dois motivos principais: as crianças são os principais atingidos e a incidência que já é alta tem crescido numa taxa de 2% ao ano. As estatísticas demonstram que algumas raças tem uma probabilidade maior de serem as causadoras de ferimentos e morte. Numa investigação envolvendo ataques por cães nos EUA e Canadá de 1982 até 2006, as raças Pit Bull, Rotweiller e seus cruzamentos estiveram envolvidas em 74 % dos ataques e em 65 % das mortes. Esses dados no entanto, devem ser avaliados com cuidado. Não devem servir como argumento para estabelecer uma sentença de morte para as raças citadas. É preciso ficar claro que todo o cão, independentemente de tamanho, sexo ou raça pode ser agressivo, mas o cão vai ser tão perigoso quanto o dono permitir. Existe até um caso de um Lulú da Pomerânia que matou um bebê de 6 semanas. Todo o cão pode ter um mau dia. A diferença é que um Pit Bull ou um Rotweiller num mau dia podem causar problemas sérios. Alguns comportamentos específicos foram selecionados por centenas de anos e não podem simplesmente ser considerados “indesejáveis” de uma hora para a outra. Raças selecionadas para guarda são naturalmente mais agressivas e devem ser avaliadas e respeitadas com base nesta premissa. Acidentes acontecem quando a cão errado está nas mãos da pessoa errada. A maior parte dos proprietários de cães é completamente ignorante a respeito dos cuidados e do treinamento requeridos por cada raça. Procurar informações antes de adquirir um cão é o mínimo que se espera de uma pessoa responsável. Com o devido conhecimento, quem busca um cão de guarda não vai escolher um Labrador, quem busca um pastor não vai escolher um Pointer e quem busca uma companhia pacífica e preguiçosa não vai escolher um Pit Bull ou um Rotweiller. Toda a raça canina tem um perfil e apesar de existirem excessões, este deve ser levado em consideração. É certo que existe um sem número de criadores irresponsáveis que só pensam no lucro imediato, mas em última análise quando um cão ataca, a responsabilidade é do proprietário. Ignorância, irresponsabilidade e displicência por parte dos donos são as causas da maioria absoluta dos ataques de cães. Menos de 1% dos ataques fatais são causados por cães mantidos na guia fora da propriedade. A responsabilidade por danos causados por animais é contemplada pela legislação brasileira e está prevista no código civil (arts.1527 e 159). Na esfera penal o proprietário do cão pode responder ainda como incurso no art.129, § 6º, do Código Penal, ou no art.31 da Lei das Contravenções Penais.
Proprietários conscientes de suas responsabilidades legais, sentem-se mais “encorajados” a procurar informação e ajuda profissional. A educação dos donos de cães deve estar focada nos seguintes ítens:
1) Compreensão dos diferentes perfis raciais. Informações a respeito das diferentes características e potenciais das raças caninas fornecem subsídios para a escolha do cão mais apropriado para pessoas com um determinado perfil psicológico e estilo de vida. Cães como Pit Bull tem muita energia e por conseguinte, necessitam de muito exercício. A maior parte dos problemas de comportamento é decorrente do tédio. Comumente o cão começa a exibir problemas de comportamento em conseqüência do stress causado pela falta de exercício físico e mental. Ao lidar com um cão existe uma seqüência padrão que se aplica a qualquer raça e que raramente é seguida: exercício, disciplina e afeto, necessariamente nesta ordem. Na melhor das hipóteses a maior parte dos cães recebe muito afeto, pouca disciplina e nenhum exercício. Receita adequada para tragédia.
2) Orientação no sentido de considerar seriamente o sexo e a condição reprodutiva do animal. Cães machos tem uma probabilidade 6,2 vezes maior de causarem agressão do que fêmeas. Machos intactos tem uma probabilidade 2,6 vezes maior de causarem agressão do que um macho castrado.
3) Importância da socialização. Os filhotes passam por um período crítico de socialização entre as 6 e 16 semanas de idade, estágio muito importante para o desenvolvimento da psicologia canina. Nesta fase os filhotes são extremamente impressionáveis tanto a experiências positivas quanto negativas. Cães que passam por experiências agradáveis com outros cães e com pessoas durante esta fase tendem a ser muito mais amigáveis e tranquilos do que cães que não tiveram esta experiência. Uma das principais causas de agressão é a agressão por medo. Neste caso, o cão se sente acuado com situações novas e ataca por medo. Por este motivo a socialização deve ser constante, não pode ficar limitada a um breve período. Imagine um animal que tenha passado a maior parte da vida convivendo apenas com pessoas da família e o que é pior; muitas vezes acorrentado e isolado num fundo de quintal. Nessas condições um cão vive no limiar do stress e qualquer situação nova pode desencadear uma reação agressiva. Esta situação pode ser algo corriqueiro como uma criança num skate ou numa bicicleta, um carrinho de bebê, um animal ou uma pessoa estranha, simplesmente qualquer elemento ao qual o cão não está habituado. A socialização consiste em educar o cão a não reagir a situações do dia a dia. Em outras palavras, consiste em dessensibilizar o filhote por meio de exposições positivas a situações e ao ambiente que ele vai encontrar durante sua vida.
4) Treinamento. O treinamento de cães não se refere simplesmente a ensinar meia duzia de commandos básicos para exibir aos amigos nem exige a contratação de um treinador caríssimo. Certamente o auxílio de um profissional qualificado e capaz de fornecer orientação acerca das técnicas mais efetivas para cada raça ou situação vale cada centavo investido, mas é importante ter em mente que treinamento de cães refere-se a mais comunicação. O que se inicia com comandos básicos (Senta, deita, fica, etc...) gradualmente pode avançar para comandos mais complexos. Neste meio tempo, o cão aprende disciplina e o dono aprende a “ler” o cão, interpretar a sua postura corporal e os sinais que este emite. No final da história, temos um lado um cão mais dócil que “entende” o que o dono quer, conhece regras e limitações e por conseguinte, mantém-se longe de problemas. Do outro lado temos um dono que comunica-se melhor, tem mais respeito pelo cão, mais autoconfiança e consegue agir e reagir sem perder a calma. O somatório é uma relação homem x animal muito mais estreita e muito mais satisfatória para ambas as partes.
A aquisição de um cão não pode ser comparada à compra de um bem de consumo qualquer. Cães não são “coisas” que podem ser jogadas num canto e esquecidas. Cães são seres vivos, merecem respeito e implicam em responsabilidades. A única “raça” que merece ser banida é a dos proprietários irresponsáveis.
By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 5 de Setembro de 2007

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