10 October, 2007

09 October, 2007

Mico-Leão-Dourado com um filhote. Crédito: WWF - Brasil


Para ler e pensar


Compartilhamos o planeta Terra com milhares de espécies de plantas e animais. Se não considerarmos seriamente nossas atitudes e a pressão que estamos impondo à biodiversidade do planeta, nossa herança às próximas gerações vai ser uma planeta cinza e sem vida.

1 - Simulações de computador indicam que, a seguir o processo de aquecimento global, cerca de um milhão de espécies poderão ser extintas pelas mudanças climáticas até 2050.

2 - Atualmente existem 7266 espécies animais e 8323 espécies vegetais em risco de extinção. O número de espécies de animais em risco de extinção cresceu 40% desde 1996 (de 5205 para 7266). 21% das espécies conhecida de anfíbios, 10% dos mamíferos e 5% dos pássaros estão em risco de extinção.

3 - A taxa de extinção atual é de 100 a 1000 vezes superior a taxa de extinção natural. As principais causas são a destruição de habitats e a mudança climática.

4 - A população de elefantes da África caiu de 300 mil na década de 70 para cerca de 10 mil nos dias de hoje
5 - A população de leões da África caiu de 50 mil na década de 80 para menos de 23 mil nos dias de hoje

6 - A população mundial de tubarões reduziu-se em cerca de 89%.

7 - A Floresta Atlântica brasileira é lar de 20 mil espécies de plantas, 264 mamíferos, 934 pássaros, 311 répteis, 456 anfíbios e 350 peixes de água doce. Inúmeras espécies só são encontradas em ecossistemas da Floresta Atlântica. Mais de 450 espécies de árvores foram catalogadas em um único hectare da Floresta Atlântica no sul da Bahia. Menos de 10% da Mata Atlântica original ainda sobrevive.

8 - O Cerrado Brasileiro contém cerca de 10 mil espécies de plantas, 195 mamíferos, 607 pássaros, 225 répteis, 186 anfíbios e 800 espécies de peixes. O cerrado encobre 21% da área total do Brasil. No entanto, apenas 20% da área original de cerrado ainda subsiste.

9 - A diversidade da Floresta Amazônica ainda permanece desconhecida, mas é certo que contém a maior coleção de espécies vegetais e animais do planeta. Já foram catalogadas pelo menos 40.000 espécies de plantas (mais de 10% do total mundial), cerca de 427 mamíferos, 1297 pássaros, 427 anfíbios, 378 répteis e entre 2500 a 3000 diferentes espécies de peixes. Só no Rio Negro já foram descritas mais de 450 espécies de peixes. Cabe salientar que em toda a Europa o número de espécies de peixes não supera 200. Aproximadamente 17% da Floresta Amazônica já foi destruída.

A exploração pecuária é um dos principais causadores do desmatamento da Amazônia. Contudo, um hectare de pecuária rende 48 vezes menos que um hectare manejado sustentavelmente para a produção de frutas, látex e Madeira. Isso comprova que nem sequer a estupidez da lógica econômica suporta o desmatamento.

O Brasil é o país mais privilegiado do planeta tanto em recursos como em diversidade natural. Como brasileiros temos uma responsabilidade imensa nas mãos. Fazer de conta que a polêmica mundial acerca da preservação ecológica, poluição e efeito estufa não nos diz respeito, além de uma irresponsabilidade é uma insanidade. Ninguém está isento. Quem não faz parte da solução faz parte do problema. Pense nisso.

By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 27 de Setembro de 2007
URL do reportagem: http://www.drd.com.br/noticia.asp?id=50014881412100001



Os números da irresponsabilidade



Manchete do iníco da semana: “A Polícia Rodoviária Federal (PRF) registrou queda nos números de acidentes, mortos e feridos na Operação de Independência, encerrada no domingo à meia-noite. Foram contabilizados 1.754 acidentes, 1.186 feridos e 101 vítimas fatais...Minas Gerais foi novamente o estado com maior número de mortos, com um total de 22 vítimas fatais. Em seguida vem Santa Catarina e Bahia (12), Rio de Janeiro (08), São Paulo (06) e Espírito Santo e Goiás (05)”. Em qualquer país desenvolvido do mundo dados como este deixariam a opinião pública de cabelos em pé e a definição seria apenas um “massacre”. Eu não considero o Brasil nem por um segundo um país sub-desenvolvido, no entanto, a manchete acima foi publicada e despertou pouca atenção. Para o brasileiro foi apenas mais um feriado e os números representam algo quem já não impressiona. Provavelmente a resposta possa ser comparada a reação dos habitantes de Bagdá diante da explosão de mais um carro bomba. A diferença é que Bagdá vive num estado de sítio, situação de guerra civil, onde ninguém sabe quem é amigo ou inimigo. O Brasil, apesar de ter todas as condições para estar muito melhor, vive um momento de paz e de relativa prosperidade. Ao menos teoricamente é uma democracia e as diferenças normalmente não são resolvidas à bala ou à bomba. O Brasileiro é pacífico por natureza. Pacífico até demais!
Estive fazendo uma análise e me dei conta que conheço muito pouca gente que ainda não perdeu um ente querido num acidente de trânsito. Eu perdi um irmão com 19 anos, e uma boa parte das pessoas que conheço passaram por tragédias semelhantes. Acidentes acontecem e de acordo com o dicionário seriam “acontecimentos casuais, fortuitos, inesperados; ocorrências”. Contudo, pelo que me consta, uma boa parte das tragédias que ocorrem no Brasil não se enquadram na classificação de “acidente”. Um motorista bêbado que atropela pessoas ou colide com outro carro não provocou um “acidente”, uma vez que é uma situação previsível. Carros que se chocam numa rodovia sem as mínimas condições de rolagem e de segurança não se envolvem em um “acidente”, simplesmente participam de um evento que é previsto na estatística pelas leis das probabilidade. Estatística essa que por sinal é muito bem aproveitada por políticos em época de eleição. Típico caso de algo que quando é favorável se aproveita e quando é desfavorável se descarta. No Brasil existem 81 veículos motorizado para cada 1000 pessoas (um carro para cada 12 pessoas) enquanto nos EUA existem 765 veículos motorizados para cada 1000 pessoas (um carro para cada 0.76 pessoa). O Brasil tem uma população de 190 milhões de habitantes enquanto os EUA tem uma população de 301 milhões de habitantes. De acordo com a Associação Brasileira de Medicina do Tráfego - ABRAMET (http://www.abramet.org/home.asp) de 30 a 50 mil pessoas morrem anualmente em acidentes automobilísticos no Brasil. Destes, 44% tem idade entre 20 e 39 anos e 82 % são homens. Nos Estados Unidos, ocorrem anualmente cerca de 6.4 milhões de acidentes automobilísticos, resultando em prejuízos materiais de cerca de 230 bilhões de dólares e ceifando a vida de cerca de 42,636 pessoas. Cerca de 115 pessoas morrem por dia em acidentes de carro nos EUA, uma morte a cada 13 minutos. As estatísticas brasileiras não são precisas, mas de qualquer modo, o Brasil apresenta um número de mortos equivalente a um país que possui uma população 30 % maior e uma proporção de carros por habitante 9 vezes maior. Em outras palavras, as estradas brasileiras matam quase 30 vezes mais que as americanas. Não seriam esses números de uma magnitude suficiente para chamar a atenção indicando que algo está errado no Brasil? Comparações com outros países são ainda mais deprimentes, melhor ficar por aqui mesmo.
Certamente um engenheiro de tráfego ou qualquer outro especialista no assunto deve ter mil explicações para a tragédia brasileira. Contudo na minha experiência como motorista de duas bandeiras posso concluir que:

- A Polícia Rodoviária Federal (PRF) faz um excelente serviço. Certamente desempenha um trabalho muito mais difícil que a polícia de trânsito americana com mais eficiência e menos condições técnicas. Certamente a PRF faz parte da solução, não do problema.

- As condições das estradas brasileiras são extremamente precárias e em muitos casos não alcançam os padrões mínimos de segurança. Os governos federal, estadual e as concessionárias deveriam ser responsabilizados criminalmente pelos acidentes ocasionados por problemas inerentes a sinalização e condições da pista de rolagem.

- O motorista brasileiro é muito habilidoso, mas irresponsável. Deveria existir mais rigor na execução da lei com relação a punição por direção irresponsável e direção sob influência de álcool ou drogas.

Nos EUA ser pego dirigindo sob influência (DUI) é passaporte para a prisão e, independe da influência social ou financeira. Pode haver favorecimento deste ou daquele com muito boas conexões, mas isso certamente é excessão. No Brasil ainda prevalece a história do “você sabe com quem está falando?”. Não raro policiais honestos tem sua autoridade atropelada por alguém “de cima”. Que foi que aconteceu com aquele pagodeiro famoso que estava dirigindo bêbado e atropelou e matou um motociclista? E aquele jogador “animal” que embriagado, se envolveu num acidente e matou 3 pessoas? O conceito de culpa está mais do que bem caracterizado na jurisprudência brasileira; qualquer cidadão só poderá ser considerado culpado após o transitado em julgado. Lamentavelmente alguns cidadãos parecem ser mais culpáveis que outros e neste meio tempo, pessoas morrem por atacado.



By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 13 de Setembro de 2007

Quando o melhor amigo ataca



O cão foi provavelmente o primeiro mamífero a ser domesticado pelo ser humano. Há os que sugerem que este relacionamento possa ter começado numa época tão remota como 100 mil anos atrás, mas o que se sabe é que há pelo menos 10 mil anos todos os assentamentos humanos registram presença de cães. Em diferentes regiões do planeta os ancestrais caninos foram selecionados com diferentes propósitos resultando numa variabilidade de formas e tamanhos que é única entre os mamíferos. Existem cães com todo tipo de pelagem e padrão de cor. A altura pode variar de pouco mais de 10 cm (Chihuahua) até mais de um metro (Dinamarquês). O peso pode variar de meio kilo até mais de 130. Apesar do American Kennel Club reconhecer apenas 218 raças, alguns autores descrevem a existência de mais de mil. Com toda essa diversidade morfológica, é razoável esperar uma diversidade proporcional de temperamentos. Por conseguinte, temos raças agitadas e raças mais tranquilas, raças mais agressivas e raças mais pacíficas. Adicione-se a isso as incontáveis misturas raciais e a influência humana e temos todo o tipo possível de temperamento e conseqüentemente de comportamento. Para os que admiram os cães, poucos fatos são tão constrangedores como capas de jornal com as seguintes manchetes: “Cão da raça Pit Bull ataca e mata bebê”, “Idosa de 81 anos é atacada por cinco cães”, etc. Estes acontecimentos entristecem e deprimem não apenas pela tragédia de vidas ceifadas ou corpos mutilados, mas pela evidência inequívoca que estamos falhando com quem nós mesmo definimos como “o melhor amigo do homem”. Lobos e cães selvagens não são animais violentos com seus pares. São animais sociais que se utilizam de uma agressividade calculada apenas para manter seu status na hierarquia. A agressividade pode ser vista mais como um ritual para estabelecer e manter a liderança, uma vez que os comportamentos agressivos raramente resultam em dano físico para indivíduos do grupo. O cão líder (alfa) mantém o controle e a hierarquia da matilha através de sua supremacia física e para isso constantemente envia sinais que reforçam sua dominância. Quando a liderança é desafiada o alfa pode desenvolver um comportamento agressivo que normalmente se extingue assim que o desafiante sinalizar submissão.
O processo de domesticação dos cães pode ter alterado a forma mas não foi capaz de alterar a substância. O instinto canino de viver em família, dentro de uma “hierarquia social de matilha” persiste. Todo cão precisa de liderança e quando este não a encontra, torna-se o líder e administra sua “matilha” do único jeito que sabe e quem não consegue entender as regras termina por pagar o preço. Por exemplo, o que a maior parte das pessoas confunde com um comportamento de “ciúmes” de alguns cães é apenas uma demonstração de dominância. Cães não sentem ciúmes, cães defendem o que consideram sua propriedade, parte de sua matilha ou seu território. Quando um cão rosna para alguém que se aproxima de um membro da família pode estar demonstrando um comportamento de guarda para o qual foi selecionado, mas também pode estar demonstrando um comportamento de dominância. Quem não souber interpretar o aviso pode terminar se ferindo. No Brasil é bastante comum ver moradores de rua sendo fielmente seguidos por cães e não me consta que exista notícia de que algum tenha sido atacado. Qual a razão ? Certamente não é pela alimentação cara e pelos mimos. O cão se sente confortável porque tem um líder, alguém que não questiona, determina e segue em frente, independentemente das adversidades.
Qual a razão para tantos ataques ? O número de ataques está realmente crescendo ou estes estão tendo maior visibilidade ?
Não consegui encontrar estatísticas atualizadas de casos de ataques por cães no Brasil, portanto vou me basear em dados dos EUA e Canadá. Nos EUA existem cerca de 74.8 milhões de cães ( 1 cão para cada 4 pessoas). Estima-se que anualmente 4.7 milhões de pessoas são feridas por cães. Destas, 800 mil sofrem ferimentos que requerem atenção médica e uma média anual de 17 morrem em decorrência destes. Mesmo assim, a probabilidade ser morto em decorrência de um ataque por cães é 58 vezes menor do que a de ser atingido por um raio. Se por um lado o número de mortes não impressiona, o número de ataques preocupa por dois motivos principais: as crianças são os principais atingidos e a incidência que já é alta tem crescido numa taxa de 2% ao ano. As estatísticas demonstram que algumas raças tem uma probabilidade maior de serem as causadoras de ferimentos e morte. Numa investigação envolvendo ataques por cães nos EUA e Canadá de 1982 até 2006, as raças Pit Bull, Rotweiller e seus cruzamentos estiveram envolvidas em 74 % dos ataques e em 65 % das mortes. Esses dados no entanto, devem ser avaliados com cuidado. Não devem servir como argumento para estabelecer uma sentença de morte para as raças citadas. É preciso ficar claro que todo o cão, independentemente de tamanho, sexo ou raça pode ser agressivo, mas o cão vai ser tão perigoso quanto o dono permitir. Existe até um caso de um Lulú da Pomerânia que matou um bebê de 6 semanas. Todo o cão pode ter um mau dia. A diferença é que um Pit Bull ou um Rotweiller num mau dia podem causar problemas sérios. Alguns comportamentos específicos foram selecionados por centenas de anos e não podem simplesmente ser considerados “indesejáveis” de uma hora para a outra. Raças selecionadas para guarda são naturalmente mais agressivas e devem ser avaliadas e respeitadas com base nesta premissa. Acidentes acontecem quando a cão errado está nas mãos da pessoa errada. A maior parte dos proprietários de cães é completamente ignorante a respeito dos cuidados e do treinamento requeridos por cada raça. Procurar informações antes de adquirir um cão é o mínimo que se espera de uma pessoa responsável. Com o devido conhecimento, quem busca um cão de guarda não vai escolher um Labrador, quem busca um pastor não vai escolher um Pointer e quem busca uma companhia pacífica e preguiçosa não vai escolher um Pit Bull ou um Rotweiller. Toda a raça canina tem um perfil e apesar de existirem excessões, este deve ser levado em consideração. É certo que existe um sem número de criadores irresponsáveis que só pensam no lucro imediato, mas em última análise quando um cão ataca, a responsabilidade é do proprietário. Ignorância, irresponsabilidade e displicência por parte dos donos são as causas da maioria absoluta dos ataques de cães. Menos de 1% dos ataques fatais são causados por cães mantidos na guia fora da propriedade. A responsabilidade por danos causados por animais é contemplada pela legislação brasileira e está prevista no código civil (arts.1527 e 159). Na esfera penal o proprietário do cão pode responder ainda como incurso no art.129, § 6º, do Código Penal, ou no art.31 da Lei das Contravenções Penais.
Proprietários conscientes de suas responsabilidades legais, sentem-se mais “encorajados” a procurar informação e ajuda profissional. A educação dos donos de cães deve estar focada nos seguintes ítens:
1) Compreensão dos diferentes perfis raciais. Informações a respeito das diferentes características e potenciais das raças caninas fornecem subsídios para a escolha do cão mais apropriado para pessoas com um determinado perfil psicológico e estilo de vida. Cães como Pit Bull tem muita energia e por conseguinte, necessitam de muito exercício. A maior parte dos problemas de comportamento é decorrente do tédio. Comumente o cão começa a exibir problemas de comportamento em conseqüência do stress causado pela falta de exercício físico e mental. Ao lidar com um cão existe uma seqüência padrão que se aplica a qualquer raça e que raramente é seguida: exercício, disciplina e afeto, necessariamente nesta ordem. Na melhor das hipóteses a maior parte dos cães recebe muito afeto, pouca disciplina e nenhum exercício. Receita adequada para tragédia.
2) Orientação no sentido de considerar seriamente o sexo e a condição reprodutiva do animal. Cães machos tem uma probabilidade 6,2 vezes maior de causarem agressão do que fêmeas. Machos intactos tem uma probabilidade 2,6 vezes maior de causarem agressão do que um macho castrado.
3) Importância da socialização. Os filhotes passam por um período crítico de socialização entre as 6 e 16 semanas de idade, estágio muito importante para o desenvolvimento da psicologia canina. Nesta fase os filhotes são extremamente impressionáveis tanto a experiências positivas quanto negativas. Cães que passam por experiências agradáveis com outros cães e com pessoas durante esta fase tendem a ser muito mais amigáveis e tranquilos do que cães que não tiveram esta experiência. Uma das principais causas de agressão é a agressão por medo. Neste caso, o cão se sente acuado com situações novas e ataca por medo. Por este motivo a socialização deve ser constante, não pode ficar limitada a um breve período. Imagine um animal que tenha passado a maior parte da vida convivendo apenas com pessoas da família e o que é pior; muitas vezes acorrentado e isolado num fundo de quintal. Nessas condições um cão vive no limiar do stress e qualquer situação nova pode desencadear uma reação agressiva. Esta situação pode ser algo corriqueiro como uma criança num skate ou numa bicicleta, um carrinho de bebê, um animal ou uma pessoa estranha, simplesmente qualquer elemento ao qual o cão não está habituado. A socialização consiste em educar o cão a não reagir a situações do dia a dia. Em outras palavras, consiste em dessensibilizar o filhote por meio de exposições positivas a situações e ao ambiente que ele vai encontrar durante sua vida.
4) Treinamento. O treinamento de cães não se refere simplesmente a ensinar meia duzia de commandos básicos para exibir aos amigos nem exige a contratação de um treinador caríssimo. Certamente o auxílio de um profissional qualificado e capaz de fornecer orientação acerca das técnicas mais efetivas para cada raça ou situação vale cada centavo investido, mas é importante ter em mente que treinamento de cães refere-se a mais comunicação. O que se inicia com comandos básicos (Senta, deita, fica, etc...) gradualmente pode avançar para comandos mais complexos. Neste meio tempo, o cão aprende disciplina e o dono aprende a “ler” o cão, interpretar a sua postura corporal e os sinais que este emite. No final da história, temos um lado um cão mais dócil que “entende” o que o dono quer, conhece regras e limitações e por conseguinte, mantém-se longe de problemas. Do outro lado temos um dono que comunica-se melhor, tem mais respeito pelo cão, mais autoconfiança e consegue agir e reagir sem perder a calma. O somatório é uma relação homem x animal muito mais estreita e muito mais satisfatória para ambas as partes.
A aquisição de um cão não pode ser comparada à compra de um bem de consumo qualquer. Cães não são “coisas” que podem ser jogadas num canto e esquecidas. Cães são seres vivos, merecem respeito e implicam em responsabilidades. A única “raça” que merece ser banida é a dos proprietários irresponsáveis.

By Luiz E. Henkes

Publicado no Diário do Rio Doce em 5 de Setembro de 2007
Bandeira do Brasil - Periquito-de-encontro-amarelo. Crédito: Daniel Lavenere

A quem nada sabe e nada vê


Responsabilidade (Dicionário Houaiss)
{verbete}

Datação
1813 cf. MS2

Acepções
¦ substantivo feminino

1 obrigação de responder pelas ações próprias ou dos outros

2 caráter ou estado do que é responsável

3 Rubrica: termo jurídico.
dever jurídico resultante da violação de determinado direito, através da prática de um ato contrário ao ordenamento jurídico

Locuções

r. administrativa

Rubrica: termo jurídico.
responsabilidade do agente administrativo pelos seus atos

...

Rubrica: termo jurídico.
responsabilidade do Estado pelos danos causados por seus agentes a particulares


r. criminal

Rubrica: termo jurídico.
responsabilidade em razão do exercício de certa função, serviço, emprego

r. legal

Rubrica: termo jurídico.
responsabilidade estabelecida em dispositivo legal

r. objetiva

Rubrica: termo jurídico.
responsabilidade cujo surgimento se dá simplesmente com a verificação do dano produzido, sem necessidade de comprovar a relação entre o ato praticado por um agente e o dano decorrente desse ato

r. patrimonial do devedor

...

Antônimos:

irresponsabilidade


Considerando os trágicos acontecimentos da história recente do Brasil decidi fazer uma rápida pesquisa acerca das estatísticas referentes ao transporte aéreo. Os dados mais atualizados que consegui encontrar referem-se a aviação civil do ano de 2004. No ano de 2004 foram registradas globalmente 22.2 milhões de decolagens (http://www.airdisaster.com/statistics/yearly.shtml) sendo que 1.79 milhões (8.06 %) foram efetuadas em território Brasileiro (http://www.infraero.com.br/movi.php?gi=movi)

No mesmo período, apenas o O'Hare International Airport em Chicago, Illinois (http://www.flychicago.com/statistics/airportstatistics.shtm), reportou 339.508 decolagens.

No Brasil, o tráfego aéreo vem crescendo numa média de 3.5 % ao ano e de acordo com o Infraero, em 2006 foram registrados 1.918.538 pousos e decolagens. Crescimento semelhante também é observado em outros países do mundo. O O'Hare International Airport registrou 595 mil pousos e decolagens em 2006 (1.1 por minuto).

As estatísticas de acidentes aéreos dos dois últimos anos são as seguintes (http://www.airdisaster.com/cgi-bin/database.cgi) :

2006 – Total de acidentes no mundo = 13

Total de acidentes no Brasil = 2 (TEAM = 19 mortes + GOL 155 mortes)

Total de mortos no mundo = 826

Total de mortos no Brasil = 177 ( 21 %)
2007 – Total de acidentes no mundo = 10

Total de acidentes no Brasil = 1 (TAM = 199 mortos)

Total de mortos no mundo = 531

Total de mortos no Brasil = 199 ( 37.4 %)

É triste observar que a participação do Brasil no número de mortos em acidentes aéreos é muito maior que a participação do país no percentual global de pousos e decolagens. Não há necessidade de ser um gênio para perceber que algo não vai bem. Associando-se as estatísticas acima com o atual caos no sistema de transporte aéreo brasileiro temos a clássica crônica de uma tragédia anunciada.

Raramente um acidente, seja aéreo ou seja de qualquer outra natureza, tem uma causa única. Sabe-se que no mundo todo as companhias aéreas fazem lobby para defender seus interesses, no mundo todo as companhias aéreas fazem o possível para reduzir custos, no mundo todo ocorrem ocasionais falhas mecânicas, no mundo todo falhas ocorrem ocasionais humanas. Justamente por estes motivos, todos países possuem órgãos responsáveis por fiscalizar e organizar o tráfego aéreo. Estes órgãos devem abrigar especialistas no assunto, pessoas capazes de estimar riscos, determinar padrões de qualidade, estabelecer metas de eficiência operacional. Pessoas que, em última análise são responsáveis pelo transporte de um passageiro de um aeroporto a outro são e salvo e dentro do prazo acordado no momento da compra da passagem. No Brasil, tais órgãos devem estar muito ocupados com outra coisa pois claramente não cumprem sua função.

O tal “apagão aéreo” certamente demonstra a agonia de um paciente terminal e esse jogo de empurra-empurra com relação ao acidente com o Airbus A-320 no aeroporto de Congonhas não é somente um desrespeito a memória dos que pereceram, é uma afronta à inteligência dos que ficaram.

Constituição Brasileira determina que:

Art. 21. Compete à União:
...
XII - explorar, diretamente ou mediante autorização, concessão ou permissão:
...
c) a navegação aérea, aeroespacial e a infra-estrutura aeroportuária;

Alguma dúvida? Alguém pode fazer o favor de avisar o Sr. Presidente que o controle aéreo faz parte das atribuições do governo? que quando as coisas dão errado depois de um milhão de avisos o governo é culpado ? É CULPADO SIM!! É claro que existe oportunismo e que a oposição vai tentar tirar proveito do fato mas o partido do presidente não pode reclamar uma vez que fez escola; nunca teve o menor pudor em explorar as falhas verdadeiras ou não de seus adversários. Contudo, a situação atual transcende a questão partidária. Deixem as picuinhas entre opositores x governistas para o período de campanha. Vidas estão em risco e vidas de pessoas de todos os partidos.

É óbvio que o presidente não queria que o avião da Gol se chocasse com o Legacy e caísse, é óbvio que o presidente não queria que o avião da TAM explodisse ao aterrisar, é óbvio que o presidente não queria que todas essas pessoas morressem. Adicionalmente também é óbvio que não é atribuição do presidente verificar se um radar, uma pista de pouso ou um avião está ou não de acordo com as normas de segurança ou se as companhias aérea respeitam os direitos do consumidor. Como um presidente não pode ser onisciente e onipresente, conta com a prerrogativa de escolher pessoas capacitadas e de sua inteira confiança para administar setores técnicos específicos. Com relação ao problema em questão, o transporte aéreo e questões relativas estão sob a responsabilidade de diferentes órgãos vinculados ao Ministério da defesa. O controle do tráfego aéreo e a defesa aérea são responsabilidades da Força Aérea Brasileira que administra os Centros Integrados de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aérea – CINDACTA. As questões relativas à infra-estrutura aeroportuária e aeronáutica são responsabilidade do Infraero. Adicionalmente, existe um órgão regulador representado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). A ANAC é uma autarquia especial, com independência administrativa, cuja missão é “regular e fiscalizar as atividades de aviação civil, bem como adotar as medidas necessárias para o atendimento do interesse público. Além disso, tem como missão incentivar e desenvolver a aviação civil, a infra-estrutura aeronáutica e aeroportuária do país”.

Se por um lado não se pode esperar que um governante saiba de tudo, por outro lado não se pode aceitar um governante que nunca sabe de nada. Curioso como algumas pessoas tem uma ignorância convenientemente seletiva, nunca sabem de nada que possa comprometê-los. Tenham a santa paciência, um presidente precisa ao menos ter uma noção do que ocorre na sua volta e preferencialmente do que esta acontecendo no país que está encarregado de governar. O mínimo que se espera é que tenha suficiente visão administrativa para escolher pessoas competentes para cargos técnicos e delas cobrar resultados. Há mais de 10 meses o sistema de transporte aéreo do Brasil demonstra sinais inequívocos de uma doença grave. Inequívocos também foram as sinais de que as pessoas responsáveis por resolver a crise pouco ou nada fizeram. Mesmo assim, a despeito de sua ineficiênica, foram mantidas nos cargos unicamente por sua afinidade pessoal ou partidária com o presidente. O Estado Democrático de Direito não admite o exercício do poder sem que haja responsabilidades. O Presidente da República é responsável não apenas pelos seus atos, mas também pelos atos das pessoas que escolheu para auxiliá-lo. O Presidente da República é presidente de todos e dele se espera um mínimo de honradez e respeito. Respeito aos milhões de eleitores que votaram nele e também aos que não votaram. Um presidente é culpado se não assumir suas responsabilidades, se não cumprir as funções para a quais foi eleito e se não honrar a confiança que lhe foi depositada. Um Presidente é eleito para fazer um trabalho, governar o país e isso é um compromisso, não é um favor!

By Luiz E. Henkes - 2 de Agosto de 2007
Sobre homens e asas

Segundo a mitologia grega, Minos, rei de Creta e filho de Zeus e de Europa era um bom sujeito. Consequentemente, não é muito lembrado. Entretanto seu neto Lycastus teve um filho também chamado Minos. Como este foi um notório mau caráter, reservou seu espaço na história. O Minos mau teve que lutar contra seus irmãos para assumir o trono de Creta. Para demonstrar que era o escolhido pediu ao deus Posseidon que lhe enviasse um touro branco sagrado para ser sacrificado como símbolo de sua subserviência. Posseidon atendeu seu pedido mas Minos não cumpriu sua promessa. Resolveu sacrificar um outro animal ao invéz do magnífico touro. Como um Deus tudo sabe e tudo vê, Posseidon ficou furioso por ter sido enganado e como castigo, fez com que Pasipha, esposa de Minos, se apaixonasse pelo animal. Do romance nasceu um monstro chamado Minotauro, com um corpo de homem e cabeça e cauda de Touro. Como touros da mitologia não precisam ser necessariamente herbívoros, o Minotauro só se alimentava de carne humana e quanto mais crescia mais selvagem se tornava. Para conter a fera, Minos solicitou ao grande arquiteto Dédalo que construísse uma jaula inexpugnável e este construiu um grande labirinto. O Minotauro terminou seus dias pelas mãos do herói Teseu, mas esta é outra história. Conta a lenda que Dédalo e seu filho Ícaro foram presos pelo rei para que não contassem o segredo do labirinto que construíram. Como o rei controlava a terra e o mar, Dédalo concluiu que o único modo de alcançar a liberdade seria pelo ar. Decide então construir um par de asas para si e para seu filho o que foi levado a efeito utilizando penas de pássaros coladas com cera. Antes da partida, Dédalo orienta Ícaro a não voar muito perto do sol uma vez que o calor poderia derreter a cera e desmanchar as asas. Ao que tudo indica, Ícaro pertencia ao modelo clássico de filho, não seguiu os conselhos de seu pai e voou muito alto. Quando se deu conta do erro, a cera havia derretido e ele se encontrava em decida vertiginosa de encontro ao mar, onde morreu. Já nesta época ficava evidente que é aconselhável seguir as instruções do fabricante.
O sonho de Ícaro contudo, não morreu com ele. Alguns milhares de anos depois, precisamente as 4 horas da tarde do dia 23 de Outubro de 1906 no aeroporto de Bagatelle, Paris, um brasileiro chamado Alberto Santos Dumont tornou-se a primeira pessoa a voar numa máquina mais pesada que o ar. Santos Dumont criou o primeiro protótipo mas não é uma unanimidade quando se trata da paternidade do avião. Para muitos (principalmente os americanos) o avião foi criado pelos irmãos Wright que teriam realizarado primeiro vôo em 1903. Fato que supostamente permaneceu anônimo devido a sua intenção de patentear o invento. Já Santos Dumont fez uma demonstração para centenas de pessoas, não quis patentear seu invento e o colocou em domínio público. O fato de Santos Dumont ter ou não a primazia do primeiro vôo tornou-se irrelevante, uma vez que seu papel, no desenvolvimento do que hoje chamamos de avião, foi fundamental e é universalmente reconhecido. Santos Dumont suicidou-se em 1932 e alguns acreditam que a visão de aviões atacando o campo de Marte, em São Paulo, durante a revolução constitucionalista contra o governo Getúlio Vargas possa ter desencadeado seu ato extremo.
Voar sempre serviu de metáfora para liberdade e para a ambição. Contudo, graças a Dumont também passou a ser uma realidade. Falando nisso, fico imaginando qual seria sua reação perante a realidade em que vivemos. Provavelmente ao invéz de se enforcar com a própria gravata Dumont certamente teria muito mais motivos para querer esganar alguns colarinhos brancos que andam por ai colocando vidas humanas em risco com o seu invento.
By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 2 de Agosto de 2007
Tranquilidade na lagoa do paraíso, jericoacoara-CE - Copyright Alex Uchôa


Senta e chora!

O turismo mundial movimenta anualmente 3,5 trilhões de dólares. A soma é tão fabulosa que fica difícil sequer ter uma noção do volume. Só para tentar dar um base, de acordo com dados do Banco Mundial o Produto Interno Bruto do Brasil (PIB) é de US$ 794 bilhões de dólares, o décimo no ranking mundial. Com uma aritmética simples é fácil de concluir que o Turismo mundial movimenta 6 vezes mais dinheiro que o Brasil. Até aí nenhum problema! De posse desta informação, certamente a maior parte das pessoas deve imaginar que o Brasil, com todas as suas belezas, carnaval, praias, Amazônia, pantanal, etc..., deve ter ficar com uma boa fatia dos turistas. Ledo engano ! De acordo com um relatório da Organização Mundial do Turismo (UNWTO/OMT) apesar de tudo que o Brasil tem e que nenhum outro país tem, ele está no 37º lugar na lista de países que mais receberam turistas estrangeiros. Ficou atrás de países como a Bulgária, Croácia,Turquia, e outros, que com o devido respeito, não tem como competir com o Brasil ao menos no que se refere ao quesito "belezas naturais"

O Brasil recebe 0.59% de todos os turistas estrangeiros que viajam no mundo. Sim, você leu direito; MENOS DE UM POR CENTO!!!!. Segundo a Embratur, a indústria do turismo no Brasil movimenta cerca de US$ 30 bilhões, o que representa algo em torno de 3,5% do PIB nacional, sendo que o turismo interno responde por, aproximadamente, 80% deste total. Baseado nisso podemos concluir que Brasil fatura cerca de 6 bilhões de dólares com o turismo internacional ou uma fatia 0,17 % do bolo de 3,5 trilhões. Se o brasil conseguisse trazer meros 2% dos turistas estrangeiros que viajam no planeta, passaria a faturar 20 bilhões de dólares anuais com o turismo. Cifra que supera os US$ 16,7 bilhões que o Brasil fatura com TODAS as suas exportações agrícolas.

Olhando para o Brasil como país, com todas as suas maravilhas e opções, é certamente difícil de entender por que não faz parte dos principais destinos turísticos do planeta. Lamentavelmente, uma análise mais detalhada logo esclarece a questão. O turista viaja para passar bem, divertir-se, relaxar. Ninguém prioriza um país onde a violência urbana está sempre nas manchetes, principalmente nas cidades que estão nos cartões postais (leia-se Rio de Janeiro). Onde a estrutura é precária, onde os aeroportos vivem num caos e muitas vezes não tem a mínima estrutura. Quem já esteve no "Aeroporto Internacional de Porto Seguro" sabe do que falo. Adicionalmente, fica difícil ser atraído para um país, que apesar de ter um dos povos mais simpáticos e agradáveis do planeta, tem autoridades arrogantes, incompetentes e que não tem a menor consideração por seu povo e por seus hóspedes. Um governo sério certamente teria demitido imediatamente uma ministra do turismo que frente a uma crise aérea sem precedentes recomenda aos passageiros "relaxar e gozar". A intenção pode ter sido fazer uma brincadeira, mas considerando-se que partiu de uma autoridade e num momento extremamente delicado, foi inapropriada, grosseira e antes de mais nada, demonstrou a mais absoluta falta de respeito e profissionalismo.

Um turista que perde uma preciosa parte de suas férias mofando num aeroporto não volta, e certamente termina fazendo com que muitos mais deixem de vir. Considerando-se a situação atual e com o perdão do trocadilho, ao que tudo indica, "senta e chora" é mais apropriado que "relaxa e goza".




By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 24 de Julho de 2007

A essas e tantas outras…

Essas que se embrenharam mata adentro e se negaram aos colonizadorese as que colaboraram com eles,

Essas que embarcaram ainda criançase as que ultrapassaram os limites da chegada,

Essas que levaram chibatadas e marcas de ferro quentee as que se revoltaram e fundaram quilombos,

Essas que vieram embaladas por sonhose as que atravessaram nos porões da escuridão,Essas que geraram filhas e filhose as que nunca pariram,

Essas que acenderam todos as espécies de velase as que arderam nas fogueiras,

Essas que lutaram com armase as que combateram sem elas,

Essas que cantaram, dançaram, pintaram e bordaramE as que só criaram empecilhos,

Essas que escreveram e traduziram seus sentimentose as que nem mesmo assinavam o nome,

Essas que clamaram por conhecimento e escolase as que derrubaram os muros com os dedos,

Essas que trabalharam nos escritórios e fábricase as que empunharam as enxadas nos campos,

Essas que ocuparam ruas e praçase as que ficaram em casa,

Essas que quiseram se tornar cidadãse as que imaginaram todas votando,

Essas que assumiram os lugares até então proibidose as que elegeram as outras,Essas que cuidaram e trataram dos diferentes malese as que adoeceram por eles,

Essas que alimentaram e aplacaram os vários tipos de fomee aquelas que arrumaram a mesa,

Essas que atenderam, datilografaram e secretariarame aquelas que lavaram e passaram sem conseguir atenção,Essas que se doutoraram e ensinarame as que aprenderam com a vida,

Essas que nadaram, correram e pularame as que sustentaram a partida,

Essas que não se comportaram bem e amaram de todas as maneirase as que fizeram sem pedir licença,

Essas que desafinaram o coro do destinoe as que com isso abriram as alas e as asas,

Essas que ficaram de forae aquelas que ainda virão,

Essas e tantas outras que existiram dentro da gente E as que viveram por nós.


Antes de mais nada a resposta é não; o verso acima não é de minha autoria! Trata-se de um poema de Fernanda Pompeu, Érico Vital Brazil e Schuma Schumaher publicado no Dicionário Mulheres do Brasil.
Estava aqui, pensando com meus botões que não tenho abordado adequadamente a presença da mulher na ciência e na cultura. Com excessão do meu artigo enfocando o trabalho de Jane Goodal, não creio que já dediquei um tema a outra mulher. Mea culpa, certamente não é por falta de modelos! Resolvi então fazer uma pesquisa a respeito de grandes mulheres na história do Brasil e me dei conta que estão muito subrepresentadas. Existem referências ocasionais a Anita Garibaldi, Ana Neri, Maria Quitéria, Chiquinha Gonzaga e poucas outras. Não pretendo discutir os porquês pois certamente isso implicaria em centenas de página só para introduzir a problemática. O que me chamou a atenção é o fato de que, mesmo mulheres que se sobressaíram em sua época não são lembradas. Só para dar um exemplo, quantas pessoas já ouviram falar de uma ilustre Potiguar chamada Nísia Floresta Brasileira Augusta ? A propósito, ilustre desconhecida, na melhor acepção do termo. Foi poetisa, escritora e educadora e apesar de ser considerada uma das maiores mentes femininas do século XIX seu nome soa sem a menor familiaridade para a absoluta maioria. Numa época em que as mulheres estavam amarradas ao destino de casar cedo, cuidar dos filhos e nem sequer eram permitidas na sala na presença de visitas, Nísia era um farol no meio da escuridão. Era graduada em história, geografia, literatura e aritmética e falava vários idiomas. Imagina o tédio que devia sentir nos saraus de tarde onde suas contemporâneas discutiam apenas sobre filhos e bordados. Nada contra ambos, mas que devia ser um purgatório para quem podia ver um pouco além da soleira da porta, devia ! Já nos idos de 1832, Nísia publica o livro “Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens” e dedicava boa parte do seu tempo lutando em defesa de minorias como negros e índios. Com relação ao machismo ela afirmava ´ "se este sexo altivo quer fazer-nos acreditar que tem sobre nós um poder natural, de superioridade, por que não nos prova o privilégio, que para isso recebeu da natureza, servindo-se de sua razão para se convencer? Tem por ventura, ele alguns títulos para justificar o direito com que reclamam nossos serviços, que também não o tínhamos contra ele?" Não precisa ser um gênio para imaginar o impacto na época. Que audácia uma mulher contestar a autoridade e ainda por cima atrever-se a discutir “assuntos de homem”.
Em 1832, Nísia muda-se para o Rio Grande do Sul onde perde o marido ao mesmo tempo em que se vê em meio a Revolução Farroupilha. Termina por mudar-se para o Rio de Janeiro e depois para a Europa onde viveu o restante de sua vida, publicou a maior parte de sua obra e privou da companhia de alguns dos maiores intelectuais da época como Auguste Comte. Publicou 15 livros que foram traduzidos para muitos idiomas e tiveram várias edições. Lembrem-se que estamos falando de uma época em que a maior parte da população sequer sabia ler.
Nísia faleceu na França em 1885. Seus restos foram transferidos para o Brasil em 1954 para sua cidade natal, Papari que atualmente se chama Nísia Floresta. Nas palavras de Câmara Cascudo, Nísia foi “a grande ave de arribação, cujas asas não cabiam nos limites do ninho..." Ela não foi apenas a mulher mais notável da história do Rio Grande do Norte, foi certamente uma das mais notáveis brasileiras de sua época.
Não me parece difícil compreender o desconhecimento da vida e da obra de Nísia Floresta num país que mal reconhece seus valores atuais e quando reconhece, não raro reconhece mal! Meu objetivo inicial era falar da exclusão das mulheres na história do Brasil, mas me dei conta que isso é apenas a ponta do iceberg. Sofremos de uma ingratidão crônica, de uma memória extremamente seletiva e de uma confusão de valores. No Brasil há esse vácuo, essa ausência de heróis nacionais, essa falta de amor próprio e de autoconfiança que nem Freud explicaria. Heróis e modelos são jogadores de futebol que ganham fortunas pelo talento que demonstram no campo e total falta de civismo (dentro) e fora dele. Adicionalmente, a demagogia política atingiu níveis nunca antes imaginados. Políticos no topo da pirâmide, que por sinal muitas vezes mal são capazes de articular uma frase num português decente, afirmam em alto e bom tom que o Brasil começou agora e que os 500 anos anteriores foram perdidos. Certamente esses mesmos indivíduos não suportariam 5 minutos de debate com um sujeito a altura de Rui Barbosa, só para citar um!
É inaceitável tamanha injustiça com tantos brasileiros e brasileiras que dedicaram sua vida para construi um país decente. Seria mais honesto se acabassemos com a hipocrisia e seguíssemos o conselho de Millôr Fernandes que diz “Sejamos sinceros, ao invés de nos queixarmos de nossa falta de memória, passemos a nos queixar de nossa falta de caráter”

By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 7 de Junho de 2007
Aquarela dedicada a Purezinha 1944


Um país se faz com homens e livros

No idos de 1882 nascia em Taubaté o autor da frase acima. Seu nome; José Bento Monteiro Lobato. Advogado, desenhista, escritor e fundador da primeira editora brasileira. Monteiro Lobato é considerado um dos maiores escritores de literatura infanto-juvenil do mundo. Com mais de 26 livros publicados, no Brasil é mais lembrado pela geração atual pela adaptação de sua obra apresentada no programa “Sítio do pica-pau amarelo” que desde 1952, já teve diversas versões na televisão. Lembro com saudade dos finais de tarde de minha infância quando sentava em frente a TV esperando ansiosamente pelas novas aventuras da Emília, Pedrinho, Narizinho, Visconde de Sabugosa, Rabicó, Dona Benta, Tia Nastásia, Saci, Cuca e outros tantos. Tradição que foi seguida pelos meus irmãos mais novos e que provavelmente acabou com o nascimento da geração video game.
Além do seu brilhante trabalho como escritor, Monteiro Lobato foi um gênio à frente do seu tempo. Tinha uma visão muito clara e considerada avançada para a época, dos problemas e do potencial do Brasil. Já na década de 30 discutia problemas sociais que são importantes até hoje como a questão do desenvolvimento urbano e empobrecimento do campo, burocracia, a questão da mulher, violência, etc... Também era um ferrenho defensor da exploração das riquezas naturais do Brasil. Afirmava por exemplo, que o Brasil possuia petróleo e que o governo devia permitir à iniciatia privada o direito de explorá-lo. Acusa o serviço geológico nacional de ineficiente e a serviço de trustes internacionais que defendiam a política de "não tirar petróleo e não deixar que ninguém o tire". Este fato o colocou em rota de colisão com o governo Getúlio Vargas que por sua vez, terminou por brindá-lo com algumas temporadas na prisão. Ironicamente, a luta de Monteiro Lobato serviu de inspiração para a campanha "O petróleo é nosso" que levou Vargas a criar a Petrobras em 1953.

Monteiro Lobato foi imortalizado por sua obra literária, contudo seu exemplo como brasileiro parece não ter tido o mesmo impacto. Num país que precisa ser feito de homens, vemos o Jeca Tatu na figura do cidadão atual, que resignado, vê o parasitismo político se instalando e nada faz. Fica de cócoras em frente ao seu rancho, pitando seu cigarro de palha e vendo a vida passar. Frente a possibilidade de lutar contra a destruição dos valores éticos e a corrupção institucionalizada coça a barbicha rala e responde: Não paga a pena!

Um país "feito de livros" é uma simples metáfora. Deveria ser óbvio o fato de que, para um país crescer, há que se promover a educação do povo. Contudo, num país que precisa ser feito de livros, o Brasil possui um quarto da população formada de analfabetos funcionais. Mesmo considerando os adultos alfabetizados, apenas um em cada três lê livros não acadêmicos (e sabe-se lá de que qualidade!) Mario Quintana já dizia que "analfabetos são os que sabem ler e não lêem", mas certamente poucos leram a frase. A propósito, para evitar uma surpresa desagradável é melhor nem investigar qual o percentual de brasileiros que já ouviram falar de Mário Quintana.

Lembro de uma oportunidade em que assistia uma palestra proferida por um cientista e escritor famoso. Quando foi permitida à audiência lhe dirigir perguntas, alguém indagou qual era a sua expectativa com relação à seus livros, considerando seu alto custo no país. Este respondeu com muito bom humor: “eu espero que tenham um preço acessível mas que sejam mais caros que papel higiênico!”

Fico imaginando qual seria a visão de Lobato do Brasil, 60 anos após a sua morte. Creio que se repetíssemos as pergunta obteríamos as mesmas respostas dadas a um repórter que o entrevistou quando morava na Argentina:

Repórter - Olhando de longe, seus pontos de vista sobre o futuro do Brasil sofreram qualquer alteração?

Monteiro Lobato — Nenhuma. Perto ou longe o nevoeiro é o mesmo

Repórter – Finalmente, retornando ao Brasil, que pretende fazer ?

Monteiro Lobato — Que pretendo fazer? Rebolar-me dentro da goiaba, contemplar o umbigo e preparar-me num convento para a viagem final. O meu cavalo está cansado, querendo cova — e o cavaleiro tem muita curiosidade em verificar pessoalmente se a morte é vírgula, ponto e vírgula ou ponto final.



By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 31 de Maio de 2007


Razões para Esperança

O centro de esportes da Colorado State University está lotado. Milhares de pessoas de todas as idades conversam animadamente. Ao fundo a orquestra da Universidade executa temas que seriam mais apropriados para uma parada ou desfile. Subitamente a multidão levanta-se e aplaude com entusiasmo. Ao fundo, calmamente entra em cena uma senhora elegante e altiva. Aproxima-se do púlpito e aguarda pacientemente. O Presidente da Universidade brevemente introduz a convidada uma vez que esta dispensa maiores apresentações. Trata-se de Jane Goodal, PhD, DBE. Eu estou familiarizado com o “PhD” mas confesso que fiquei curioso com o significado de “DBE” e decidi investigar. Para uma pessoa a altura de Jane Goodal usar tal credencial, deve ser algo importante. E é! DBE é a abreviação de “Dame of the British Empire”, honraria feminina que correspondente ao “Knight of the British Empire” (cavalheiro do Império Britânico) mais conhecido como “Sir”. A Dr. Goodal certamente não necessita de nenhum título honorífico para turbinar seu currículo, mas com certeza o merece. Quem tiver o privilégio de conhecê-la vai estar diante de uma figura aparentemente frágil, olhos profundos, fala pausada e gestos aristocráticos e mesmo que não a conheça, não levará mais que alguns segundos para perceber que está diante de alguém especial, muito especial ! Nascida em Londres, Jane Goodal desde cedo demonstrou um fascínio especial por todas as formas de vida. Não pertencendo a uma família rica tornou-se secretária, mas sem jamais abandonar seu interesse pela natureza. Ofereceu-se para trabalhar com Louis Leakey, o cientista que estabeleceu que o ser humano evoluiu de um ancestral comum, originário da África. Com seu entusiasmo, Jane convenceu o Dr Leakey a enviá-la para a Africa para estudar os Chipanzés do Lago Tanganica, na Tanzânia. Seu observações a respeito da vida social e familiar dos Chipanzés e principalmente a descoberta de que se utilizam de ferramentas levou muitos cientistas a reavaliarem seus conceitos a respeito do que pode ser considerado “humano”. Até então acreditava-se que os seres humanos eram os únicos a se utlizarem de ferramentas e este fato é o que nos diferenciava de nossos parentes mais próximos. Hoje já se sabe somos ainda mais próximos. Descobriu-se que humanos e Chipanzés tem apenas 1% de diferença em seus genes, que os Chipanzés podem adquirir praticamente todas as doenças humanas e inclusive é possível fazer transfusão interespecífica de sangue.
Apesar de sua paixão pelo estudo dos Chipanzés em seu habitat natural, há muitos anos Jane tomou uma decisão difícil e afastou-se do trabalho de campo. Percebeu que poderia seria mais útil não apenas para os Chipanzés, mas para a natureza e a humanidade tornando-se uma ativista, levando ao mundo a sua experiência e sua mensagem de alerta. Em 1977 fundou o “Instituto Jane Goodal para pesquisa de vida selvagem, educação e conservação” cujo objetivo principal era dar suporte às pesquisas com Chipanzés mas que tornou-se referência mundial por seus programas de conservação de ecossistemas promoção de convivência sustentável e conscientização de jovens. Em decorrência do seu trabalho, em 2002 a Dr Goodal foi designada “Mensageira da Paz” pelo Secretário Geral das Nações Unidas Koffi Annan. A função de tais “Mensageiros” é auxiliar na mobilização das pessoas para tornar este mundo um lugar melhor para se viver e certamente Jane Goodal possui todas as qualificações necessárias. Ela afirma que o que nos faz humanos é nossa linguagem, nossa capacidade de pensamento, de contar histórias do passado e planejar o futuro, de discutir idéias. Portanto, é absolutamente inadmissível que a única espécie animal com este potencial seja justamente a que esta destruindo o planeta. É assustador quando se percebe que atualmente entre 20 a 30 % de todas as espécies animais correm risco de extinção. Jane acredita que a possibilidade de uma mudança para melhor baseia-se em quatro pontos:
a) O cérebro humano que nos permite perceber que existe de fato um problema que esta ameaçando a nossa vida na terra. Somos responsáveis pelo mundo que vamos deixar para nossos descendentes e devemos aprender a ter respeito por todas as coisas vivas;
b) A determinação dos jovens que atualmente estão mais conscientes e preocupados com as questões ambientais e que serão os líderes do futuro;
c) O indomável espírito humano representado por milhares de pessoas que não medem esforços para fazer este planeta um lugar melhor para se viver, que nunca desistem de seus sonhos e que, com seu exemplo, inspiram a outros tantos;
d) A capacidade der recuperação da natureza que mesmo após as maiores agressões impostas pelo ser humano ainda teima em se recuperar. Jane carrega consigo uma folha de uma árvore que resistiu a explosão atômica de Hiroxima como símbolo de esperança.
Ao ser questionada se ela realmente acreditava num futuro melhor afirmou categoricamente “eu viajo 300 dias por ano e já estive em mais de cinquenta países levando minha mensagem. Eu não faria isso se não acreditasse que existe esperança. Está em nossas mãos e só depende de nós. A humanidade pode enfrentar o desafio e tornar este mundo melhor. Nós devemos! Nós iremos! "

By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 3 de Maio de 2007


Defenda o Urso-Polar

O Painel Intergovernamental da Mudança Climática (IPCC) é um grupo de estudos estabelecido para Organização Meteorológica Mundial (WMO) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP). O IPCC contudo, não desenvolve pesquisas próprias. Seu trabalho, baseado na análise de publicações técnico/científicas, visa estimar o impacto e o risco dos efeitos da atividade humana no clima da Terra e sugerir alternativas para minimizá-lo. Só para termos uma dimensão, o relatório de 2007 a ser publicado nos próximos dias está fundamentado na opinião de mais de 2500 pesquisadores de mais de 130 países e levou 6 anos para ser concluído. O estudo concluiu algo que já sabemos; o clima está mudando. Mesmo cientistas que não acreditam que as alterações climáticas atuais tenham origem na nossa falta de respeito com o planeta, concordam que mudanças estão ocorrendo e as projeções não são animadoras. Segundo o relatório do IPCC, a emissão de gases que causam o efeito estufa teve um incremento de 70 % de 1970 até 2004 e acredita-se que esta ainda pode aumentar de 25 a 90 % até 2030 se nada for feito. As nações consideradas ricas possuem cerca de 20 % da população mundial, mas são responsáveis por quase 50 % da emissão de tais gases. Se seguirmos neste ritmo, as mudanças climáticas causarão um aumento da incidência de secas e fome, na África e na Ásia além da elevação do nível dos oceanos e um aumento da freqüências de inundações e tempestades de grande impacto. O ser humano parece sofrer de uma espécie de “estrabismo moral”. Cada um de nós só consegue olhar o próprio umbigo e faz de conta que toda essa história só diz respeito aos outros. Está mais do que na hora de tomarmos consciência de que todos seremos afetados. Não há a mínima garantia de que alguém em especial vai conseguir sair ileso. Há muito pressionamos as reservas do planeta além de limites sustentáveis. Mesmo os que não estarão vivos para padecer as consequências de nossa irresponsabilidade devem se dar conta que seus descendentes vão estar. Que planeta pretendemos deixar para nossos filhos e netos ? O empresário que contamina o ar e polui rios não pode por um segundo afirmar que está se preocupando com o futuro dos filhos. Do mesmo modo, está sendo egoísta o agricultor que não protege mananciais e derruba florestas. Ambos pensam apenas na sua própria riqueza e ignoram o futuro de seus próprios descendentes. Contudo, mesmo o simples cidadão que não possui uma indústria ou uma fazenda precisa fazer a sua parte. Cuidados mínimos no cotidiano, como evitar o desperdício de água e energia, reciclar e limitar o uso de produtos descartáveis no conjunto da sociedade tem um efeito muito significativo e importante. Somos todos parte do problema e por conseguinte, podemos nos tornar parte da solução. Mesmo que neste exato momento, cessássemos toda a emissão de gases causadores do efeito estufa, os efeitos dos danos que já causamos ainda iriam alterar o clima da Terra pelos próximos 30 anos, no mínimo! Não existe solução a curto prazo. O que existe, é algo muito básico chamado “bom senso”. Não se concentre tanto nos quatro carros do seu vizinho nem nos países que não assinaram o tratado de Kioto. Antes disso, tenha certeza de que você está fazendo o possível. Uma vez que você esteja completamente convencido de que faz sua parte, vista a camiseta e vá para as ruas defender a sobrevivência do Urso-Polar, da Arara-Azul do Boto Cor-de-rosa e tudo mais que você julgar importante.

By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 12 de Abril de 2007


A natureza dos sonhos

“De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos” (Fernando Pessoa).
Desde que se tem registro da história da humanidade os sonhos têm exercido um fascínio irresistível sobre o ser humano. Os sonhos e suas interpretações têm presença garantida no imaginário popular de todas as culturas e são incontáveis os religiosos, poetas, filósofos e escritores que abordaram o tema. No entanto, foi somente após a publicação de uma das obras clássicas de Sigmund Freud, Traumdeutung (Interpretação dos Sonhos) que a investigação dos sonhos passou a ter um enfoque científico. Freud sugeria que cada sonho tem um significado e traz uma mensagem manifestada por um processo inconsciente. O conteúdo dos sonhos seria “o resultado dos desejos inconscientes, principalmente de sentido sexual, reprimidos no estado de vigília”. Portanto, seu estudo poderia ser utilizado na psicanálise e no tratamento de neuroses. Não obstante sua contribuição para a análise científica do tema, a descrição freudiana do sonho é duramente criticada por sua carência de respaldo na neurofisiologia. Já se sabe que os sonhos não têm origem em fatores psicológicos como desejos reprimidos, mas em processos biológicos. A natureza excêntrica dos sonhos está recém começando a fazer algum sentido para os cientistas que estudam os processos cerebrais que ocorrem durante o sono. Em 1977 dois cientistas da Universidade de Harvard, Dr. Allan Hobson e Dr. Robert McCarley propuseram a hipótese da “síntese-ativação”, que postula que os sonhos são processos aleatórios. Durante a fase do sono REM (quando ocorre o processamento da memória), o córtex cerebral é extremamente ativo. Isso faria com que certos neurônios fossem estimulados ao acaso (ativação). Em resposta a estes sinais aleatórios o cérebro buscaria algo que fizesse sentido, uma melhor adaptação, que, por sua vez, geraria os impulsos que experimentamos como “sonhos”. O fato da teoria negar a possibilidade dos sonhos terem algum significado ou estarem relacionados ao ambiente, gerou uma enorme controvérsia e críticas severas por parte de outros estudiosos do assunto. Em conseqüência, uma revisão da hipótese publicada em 1988 pelos mesmos autores já aceita que os sonhos podem não ser um processo tão aleatório como se imaginava e podem ser reflexos de memórias, medos, esperanças e desejos.
Ainda estamos muito longe de desvendar os segredos do sonho e vamos seguir intrigados com sua natureza. As evidências apenas indicam que os sonhos têm tanto determinantes fisiológicos quanto psicológicos. Combinados, estes funcionam de maneira única em cada indivíduo. É uma força fascinante que nos brinda com a possibilidade de experimentar o mundo de uma perspectiva completamente particular. Que nos permite a consciência de nossa individualidade como seres humanos.


By Luiz E. Henkes

Publicado no Diário do Rio Doce em 22 de Março de 2007


A Terra ninguém engana!


O Relatório “Situação das Florestas do Mundo” da Organização para Agricultura e Alimentos das Nações Unidas (State of the World’s Forest - FAO) publicado no dia 13 de março de 2007 traz boas notícias para o planeta e gera um constrangimento para o Brasil. A boa notícia é que várias regiões do mundo têm apresentado redução no desmatamento e aumento da área florestal. Mais de 100 países já possuem programas nacionais de preservação, uso e manejo de florestas. Políticas têm sido implementadas com enfoque na conservação do solo, da água e da diversidade biológica, mas, infelizmente, os países pobres ainda são os com maiores dificuldades de avançar nessas áreas. Aproximadamente 30% da superfície terrestre seca é coberta por florestas, computando cerca de 4 bilhões de hectares. Contudo, de acordo com o relatório da FAO, só de 1990 até 2005 houve uma perda de cerca de 3% desta área. Apesar de no período de 2000 a 2005 cinqüenta e sete países terem apresentado um aumento na área florestal, cerca de 83 apresentaram uma diminuição e esta representou um total de 7.3 milhões de hectares ou 20 mil hectares por dia. Os líderes da parte ruim da estatística estão entre os 10 países que possuem 80% das florestas primárias mundiais e o “Oscar” de maiores destruidores de florestas vai para a Indonésia, México, Papua Nova Guiné e Brasil. Isso não significa que devamos crucificar o Brasil, afinal de contas, desde 1988 a situação melhorou muito. Há que se considerar que cerca da metade das florestas reservadas para conservação permanente na América Latina e Caribe estão no Brasil e consistem numa área nada desprezível, cerca de 271 milhões de hectares. Num artigo publicado no “Estado de São Paulo” em 17 de janeiro (http://www.desmatamento.cnpm.embrapa.br/) o pesquisador da Embrapa, Dr. Evaristo E. de Miranda, defende os méritos do Brasil na preservação das florestas nativas. Segundo o pesquisador, há 8 mil anos, o Brasil possuía 9,8% das florestas mundiais e hoje, o País detém 28,3%. O País ainda possui cerca de 69,4% de suas florestas primitivas. Não pretendo contestar tais dados, uma vez que não tenho conhecimento de causa, mas me atrevo a dar uma opinião por conhecimento de fato. Proporcionalmente o Brasil desmatou pouco e certamente não pode ser taxado como o único vilão da história. Não obstante, precisa fazer uma mea-culpa, pois ainda tem um longo caminho a seguir para ser considerado um país que realmente defende e preserva sua natureza. Os recursos naturais brasileiros são incomparáveis. O Pantanal, o cerrado, a Mata Atlântica, a Floresta Amazônica e tantos outros ecossistemas são únicos e devem ser tratados com o devido respeito. Não podem estar sujeitos aos humores de políticos oportunistas e empresários inescrupulosos. A expansão das fronteiras agrícolas deve ser feita de modo responsável ao mesmo tempo que a criação de áreas para reflorestamento deve ser incentivada e não pautada em interesses particulares de facções políticas radicais e inconseqüentes. Como diria meu sábio pai Ernani Henkes, agricultor por paixão e profissão: “A terra ninguém engana!”


By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 15 de Março de 2007


A Esquina do Mundo


Conhecida como “Big Apple” (a grande maçã), a cidade de New York (NY) é a mais populosa e famosa dos EUA e concentra um dos maiores conglomerados humanos do planeta, com cerca de 18 milhões de habitantes. Além de centro econômico e cultural mundial, também é a sede da Organização das Nações Unidas. Dividida em 5 regiões, Bronx, Brooklyn, Manhattan, Queens e Staten Island, NY é familiar a qualquer pessoa que já teve oportunidade de assistir televisão ou ter ido ao cinema. A Times Square, o Central Park, a estátua da Liberdade nos são tão familiares como um cafezinho com pão de queijo. As atrações culturais são um convite aos mais variados gostos, mas não obstante o seu charme, NY é uma megalópolis com todos os problemas comuns as outras. O trânsito é caótico e os taxistas mais parecem saídos de uma batalha da idade média. Tentar atravessar a rua, mesmo quando o sinal está aberto para os pedestres é uma aventura e tanto. O metrô é eficiente, mas não é muito amigável. É um bocado complicado saber se estamos indo para o lado certo e mesmo como uma probabilidade de 50 % de acerto, parece que existe uma tendência de sempre escolhermos a direção errada. A população de NY é extremamente variada e encontra-se representantes da mais diferentes culturas. Muitas vezes tem-se a impressão de se estar vivendo num filme como Blade Runner. Creio que Ridley Scott não deve ter tido maiores dificuldades em dirigir tal filme se andou pela Broadway. Na verdade, todos nos sentimos meio mutantes andando na noite de NY. Apesar da fama, o novaiorquino é simpático. Do seu jeito, mas é! Não espere muita atenção pois tempo é mercadoria de luxo. Contudo, na medida do possível e dentro do pragmatismo vigente, tentam ajudar. Aliás, coisa rara em NY é um novaiorquino. Ouve-se todo o tipo de idioma menos o inglês e não raro tem-se a impressão de se estar num país de língua espanhola. Brasileiros, com certeza, são presença constante. É interessante estar num local como o Hard Rock Cafe ou na Barnes & Noble e ouvir aquele conhecido idioma bem ao nosso lado. Dirigindo-se mais ao sul de Manhatan encontramos Wall Street, o coração econômico do mundo. Fica difícil à um simples mortal ter uma dimensão dos bilhões de dólares e milhões de vidas que lá estão em jogo todos os dias. Avançando mais um pouco na Broadway chega-se ao porto onde pode-se tomar um barco para conhecer a estátua da Liberdade, certamente o mais importante ícone dos Estados Unidos. A Estátua da Liberdade foi esculpida por Frederic A. Bartholdi e é sustentada por uma estrutura desenhada por Alexandre G. Eiffel (que construiu a torre Eiffel). É impossível não se emocionar diante sua visão. Mais ainda, não se emocionar com o que foi sua perspectiva no dia 11 de setembro de 2001 quando o World Trade Center foi atacado. O que resta dos dois prédios é um imenso vácuo chamado de “Ground zero”. Provavelmente algo mais imponente vai ser construído no local. Contudo, a visão dos horrores vividos pelas vítimas de uma estratégia equivocada aplaudida por milhares de idiotas ensandecidos jamais será apagada. Sempre haverá a lembrança de que na esquina do mundo a humanidade tomou o caminho errado.

By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 8 de Março de 2007