
A essas e tantas outras…
Essas que se embrenharam mata adentro e se negaram aos colonizadorese as que colaboraram com eles,
Essas que embarcaram ainda criançase as que ultrapassaram os limites da chegada,
Essas que levaram chibatadas e marcas de ferro quentee as que se revoltaram e fundaram quilombos,
Essas que vieram embaladas por sonhose as que atravessaram nos porões da escuridão,Essas que geraram filhas e filhose as que nunca pariram,
Essas que acenderam todos as espécies de velase as que arderam nas fogueiras,
Essas que lutaram com armase as que combateram sem elas,
Essas que cantaram, dançaram, pintaram e bordaramE as que só criaram empecilhos,
Essas que escreveram e traduziram seus sentimentose as que nem mesmo assinavam o nome,
Essas que clamaram por conhecimento e escolase as que derrubaram os muros com os dedos,
Essas que trabalharam nos escritórios e fábricase as que empunharam as enxadas nos campos,
Essas que ocuparam ruas e praçase as que ficaram em casa,
Essas que quiseram se tornar cidadãse as que imaginaram todas votando,
Essas que assumiram os lugares até então proibidose as que elegeram as outras,Essas que cuidaram e trataram dos diferentes malese as que adoeceram por eles,
Essas que alimentaram e aplacaram os vários tipos de fomee aquelas que arrumaram a mesa,
Essas que atenderam, datilografaram e secretariarame aquelas que lavaram e passaram sem conseguir atenção,Essas que se doutoraram e ensinarame as que aprenderam com a vida,
Essas que nadaram, correram e pularame as que sustentaram a partida,
Essas que não se comportaram bem e amaram de todas as maneirase as que fizeram sem pedir licença,
Essas que desafinaram o coro do destinoe as que com isso abriram as alas e as asas,
Essas que ficaram de forae aquelas que ainda virão,
Essas e tantas outras que existiram dentro da gente E as que viveram por nós.
Antes de mais nada a resposta é não; o verso acima não é de minha autoria! Trata-se de um poema de Fernanda Pompeu, Érico Vital Brazil e Schuma Schumaher publicado no Dicionário Mulheres do Brasil.
Estava aqui, pensando com meus botões que não tenho abordado adequadamente a presença da mulher na ciência e na cultura. Com excessão do meu artigo enfocando o trabalho de Jane Goodal, não creio que já dediquei um tema a outra mulher. Mea culpa, certamente não é por falta de modelos! Resolvi então fazer uma pesquisa a respeito de grandes mulheres na história do Brasil e me dei conta que estão muito subrepresentadas. Existem referências ocasionais a Anita Garibaldi, Ana Neri, Maria Quitéria, Chiquinha Gonzaga e poucas outras. Não pretendo discutir os porquês pois certamente isso implicaria em centenas de página só para introduzir a problemática. O que me chamou a atenção é o fato de que, mesmo mulheres que se sobressaíram em sua época não são lembradas. Só para dar um exemplo, quantas pessoas já ouviram falar de uma ilustre Potiguar chamada Nísia Floresta Brasileira Augusta ? A propósito, ilustre desconhecida, na melhor acepção do termo. Foi poetisa, escritora e educadora e apesar de ser considerada uma das maiores mentes femininas do século XIX seu nome soa sem a menor familiaridade para a absoluta maioria. Numa época em que as mulheres estavam amarradas ao destino de casar cedo, cuidar dos filhos e nem sequer eram permitidas na sala na presença de visitas, Nísia era um farol no meio da escuridão. Era graduada em história, geografia, literatura e aritmética e falava vários idiomas. Imagina o tédio que devia sentir nos saraus de tarde onde suas contemporâneas discutiam apenas sobre filhos e bordados. Nada contra ambos, mas que devia ser um purgatório para quem podia ver um pouco além da soleira da porta, devia ! Já nos idos de 1832, Nísia publica o livro “Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens” e dedicava boa parte do seu tempo lutando em defesa de minorias como negros e índios. Com relação ao machismo ela afirmava ´ "se este sexo altivo quer fazer-nos acreditar que tem sobre nós um poder natural, de superioridade, por que não nos prova o privilégio, que para isso recebeu da natureza, servindo-se de sua razão para se convencer? Tem por ventura, ele alguns títulos para justificar o direito com que reclamam nossos serviços, que também não o tínhamos contra ele?" Não precisa ser um gênio para imaginar o impacto na época. Que audácia uma mulher contestar a autoridade e ainda por cima atrever-se a discutir “assuntos de homem”.
Em 1832, Nísia muda-se para o Rio Grande do Sul onde perde o marido ao mesmo tempo em que se vê em meio a Revolução Farroupilha. Termina por mudar-se para o Rio de Janeiro e depois para a Europa onde viveu o restante de sua vida, publicou a maior parte de sua obra e privou da companhia de alguns dos maiores intelectuais da época como Auguste Comte. Publicou 15 livros que foram traduzidos para muitos idiomas e tiveram várias edições. Lembrem-se que estamos falando de uma época em que a maior parte da população sequer sabia ler.
Nísia faleceu na França em 1885. Seus restos foram transferidos para o Brasil em 1954 para sua cidade natal, Papari que atualmente se chama Nísia Floresta. Nas palavras de Câmara Cascudo, Nísia foi “a grande ave de arribação, cujas asas não cabiam nos limites do ninho..." Ela não foi apenas a mulher mais notável da história do Rio Grande do Norte, foi certamente uma das mais notáveis brasileiras de sua época.
Não me parece difícil compreender o desconhecimento da vida e da obra de Nísia Floresta num país que mal reconhece seus valores atuais e quando reconhece, não raro reconhece mal! Meu objetivo inicial era falar da exclusão das mulheres na história do Brasil, mas me dei conta que isso é apenas a ponta do iceberg. Sofremos de uma ingratidão crônica, de uma memória extremamente seletiva e de uma confusão de valores. No Brasil há esse vácuo, essa ausência de heróis nacionais, essa falta de amor próprio e de autoconfiança que nem Freud explicaria. Heróis e modelos são jogadores de futebol que ganham fortunas pelo talento que demonstram no campo e total falta de civismo (dentro) e fora dele. Adicionalmente, a demagogia política atingiu níveis nunca antes imaginados. Políticos no topo da pirâmide, que por sinal muitas vezes mal são capazes de articular uma frase num português decente, afirmam em alto e bom tom que o Brasil começou agora e que os 500 anos anteriores foram perdidos. Certamente esses mesmos indivíduos não suportariam 5 minutos de debate com um sujeito a altura de Rui Barbosa, só para citar um!
É inaceitável tamanha injustiça com tantos brasileiros e brasileiras que dedicaram sua vida para construi um país decente. Seria mais honesto se acabassemos com a hipocrisia e seguíssemos o conselho de Millôr Fernandes que diz “Sejamos sinceros, ao invés de nos queixarmos de nossa falta de memória, passemos a nos queixar de nossa falta de caráter”
By Luiz E. Henkes
Publicado no Diário do Rio Doce em 7 de Junho de 2007